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04 - CAN (Campus Area Network)

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CAN (Campus Area Network)

1. Definição e Caracterização

CAN (Campus Area Network), também chamada de Corporate Area Network ou Controller Area Network (contexto automotivo, fora do escopo aqui), é uma rede que interconecta múltiplos edifícios próximos geograficamente — tipicamente dentro de um campus universitário, parque corporativo, complexo industrial ou hospital de grande porte. A extensão geográfica típica varia de 1 km a 5 km, intermediária entre uma LAN de edifício único e uma MAN metropolitana.

Características essenciais:

  • Alcance: até ~5 km (raio), englobando múltiplos prédios.
  • Propriedade: privada — a organização dona do campus detém toda a infraestrutura, inclusive o meio físico (fibra enterrada entre prédios).
  • Meio físico dominante: fibra óptica multimodo (OM4) ou monomodo (OS2) entre prédios; UTP Cat6/6A dentro de cada edifício.
  • Tecnologias: Ethernet (10GE/40GE/100GE) sobre fibra dark, Routed Access ou Classic 3-tier.
  • Topologia: núcleo (core) duplo redundante, anel ou malha parcial entre prédios.
  • Roteamento: L3 no núcleo e frequentemente no acesso (routed access), com OSPF ou IS-IS como IGP dominante.

2. Contexto Histórico

Década Evolução das CANs
1980 Primeiros campus universitários com 10BASE5 coaxial interligando prédios
1990 FDDI em anel dual-counter-rotating como backbone de campus
1995 Fast Ethernet e fibra multimodo 62,5/125 µm (FDDI grade)
2000 Gigabit Ethernet sobre SMF; switch L3 no core
2005 10GE no backbone; redes sem fio distribuídas
2010 Routed Access Design (Cisco SRA); OSPF no acesso
2015 40GE/100GE no core; SDN em campus (Cisco SD-Access)
2020 Wi-Fi 6/6E distribuído, WLC centralizado; segmentação com Cisco TrustSec/SD-Access
2024 Wi-Fi 7; CANs convergindo com edge computing

3. Arquitetura Típica de uma CAN

3.1 Modelo Clássico (3-tier) com Backbone de Fibra

                  ┌──────────────────────────┐
                  │   Core L3 (par redunt.)  │  100GE/400GE
                  │   OSPF area 0            │
                  └──────────────────────────┘
                          │           │
            ┌─────────────┘           └──────────────┐
       ┌────┴────┐                ┌────┴────┐         │
       │Dist. A  │                │Dist. B  │  ...    │  10GE SMF
       └────┬────┘                └────┬────┘         │
       ┌────┴───┐  ┌────┐         ┌───┴────┐         │
       │Bldg A  │  │Bldg│ ...     │Bldg N  │         │  Access L3
       │Access  │  │ B  │         │Access  │         │  1GE/2.5GE
       └────────┘  └────┘         └────────┘         │

3.2 Modelo Routed Access

Tendência moderna: o switch de acesso (em cada edifício) roda OSPF e é vizinho L3 do core, eliminando o tier de distribuição. Vantagens:

  • Sem dependência de STP em L2 — sem loops.
  • Convergência rápida via OSPF ou IS-IS (< 1s com BFD).
  • Failover determinístico via ECMP.
  • Segurança: ACLs L3 por interface.

3.3 Topologias de Backbone

Topologia Vantagens Desvantagens
Estrela para o core Simples, previsível Ponto único no core (mitigado com par redundante)
Anel Econômica em fibra Convergência STP/IGP mais lenta
Malha parcial (UPSR ou MSTP) Resiliência máxima Custo elevado, complexidade
Malha completa (raro) Múltiplos caminhos O(n²) fibras

Em ambientes modernos, preferem-se pares de switches core redundantes (VSS, vPC, StackWise Virtual) com uplinks ECMP para acesso.

4. Tecnologias Físicas e de Enlace

4.1 Fibra entre Prédios

Tipo Distância máx Aplicação
OM4 (50/125 μm MMF) 550 m a 10GE; 150 m a 40/100GE Prédios próximos
OM5 (WB MMF) 550 m a 10GE; CWDM Future-proof
OS2 (9/125 μm SMF) 40 km a 10GE; 10 km a 100GE Backbone de campus
OS2 + DWDM 80+ km, multi-lambda Campus muito grande

A escolha entre multimodo e monomodo é econômica: MMF é mais barato por metro, mas os transceivers SR4 são limitados em distância. Para distâncias > 300 m, SMF é quase sempre mais adequado, mesmo com transceivers LR4 mais caros.

4.2 Cabos Resistentes a Intempérie

Enterrados em dutos subterrâneos (mais seguro) ou aéreos em postes (mais barato, mas suscetível a quedas de árvores e descargas atmosféricas). Cabos tipo "armored" (com capa metálica) resistem a roedores; GEWR (gel-filled loose tube) evita ingresso de água.

5. Exemplo Prático: Campus Universitário

Cenário: universidade com 8 prédios acadêmicos, 2 residências estudantis, 1 datacenter, 1 biblioteca — total ~12 edifícios num raio de 1,5 km.

                ┌────────────────────┐
                │  DC (Core L3)      │  OSPF area 0
                │  2x Cisco Catalyst │  100GE SMF
                │  9500 (StackWise V)│
                └─────────┬──────────┘
                          │
        ┌─────┬───────────┼────────────┬────────┐
        │     │           │            │        │
    Bldg A  Bldg B     Bldg C       Library  Resid.
    10GE    10GE        10GE         10GE     10GE
    (OSPF)  (OSPF)      (OSPF)       (OSPF)   (OSPF)
  • Cada edifício: switch L3 (Catalyst 9300) com 4 uplinks 10GE LACP para o core.
  • VLANs locais por edifício (dados, voz, gestão, IoT).
  • Wi-Fi: WLC central no DC, APs em cada prédio via CAPWAP.
  • Internet egressa pelo DC, com firewall de borda (Fortinet/Palo Alto).

6. Roteamento em CANs

OSPF é o IGP dominante em CANs. Boas práticas:

  • Área 0 (backbone) no core; áreas resumidas por prédio (redução de LSDB).
  • BFD (Bidirectional Forwarding Detection) com timers 300/300 ms.
  • ECMP entre pares de core para até 16 caminhos paralelos.
  • Resumo de rotas no ABR (Area Border Router).

Alternativas:

  • IS-IS: usado em redes maiores e telcos, menos comum em CANs tradicionais.
  • EIGRP: Cisco proprietário (RFC 7868 liberou em 2016), ainda comum em ambientes Cisco legados.
  • BGP: raro em CANs tradicionais, mas comum em SD-Access (LISP/BGP de controle).

7. Redundância e Resiliência

Técnicas empregadas:

  • Par de switches core em VSS/vPC/StackWise Virtual: control plane unificado, failover transparente.
  • Uplinks cruzados (cross-connect): cada switch de acesso tem uplinks para ambos os cores.
  • MSTP ou RSTP em L2 (quando usado): convergência < 1s.
  • UDLD aggressive: detecta links unidirecionais (fibra quebrada em um sentido).
  • BFD: detecção sub-segundo de falhas para IGP.
  • NSF/Graceful Restart: roteador com falha mantém forwarding durante reconvergência.

8. Segmentação e Segurança

Em CANs modernas, a segmentação evoluiu além de VLANs simples:

Tecnologia Mecanismo Caso de Uso
VLAN + ACL L2/L3 clássico Pequenos campus
Private VLAN (PVLAN) Isola hosts na mesma VLAN Datacenter legado
- VRF (Virtual Routing and Forwarding) Tabelas de roteamento isoladas Multi-tenancy em CAN
- Cisco TrustSec (SGT) Tags de grupo no frame (macsec) Políticas baseadas em identidade
- SD-Access (Cisco DNA) Overlay LISP+VXLAN Campus modernos com automação
- Microsegmentação Por fluxo, via engenheira de software Zero Trust

Acesso à rede por NAC (Cisco ISE, Aruba ClearPass) autenticando via 802.1X/EAP-TLS antes de atribuir VLAN/SGT dinâmico.

9. Casos de Uso Reais

  • Universidades: UNICAMP, USP, MIT — dezenas de milhares de usuários, centenas de APs, áreas acadêmicas, residências, hospitais universitários.
  • Parques corporativos: Googleplex, Microsoft Redmond Campus — dezenas de edifícios administrativos, datacenters locais, rede Wi-Fi de altíssima densidade.
  • Hospitais de grande porte: Hospital das Clínicas (FMUSP), Albert Einstein — integrando prédios administrativos, alas de internação, CTI, datacenter de prontuário eletrônico.
  • Aeroportos: terminais múltiplos, torre de controle, hangares, rede separada para operações (AODB) e comercial (lojas).
  • Indústrias: plantas petroquímicas com prédios administrativos, salas elétricas remotas, redes OT (Purdue model L2/L3).

10. Boas Práticas

  • Projetar com par redundante no core desde o início.
  • Documentar topologia física (cabo a cabo) em ferramenta como netbox ou HPNA.
  • Plano de endereçamento hierárquico (RFC 1219) — um /16 por CAN, /24 por VLAN.
  • Aplicar BIOS/IOS hardening (SNMPv3, SSH, AAA, syslog centralizado).
  • Monitorar com NetFlow/sFlow e correlacionar com SIEM.
  • Atualizar firmware trimestralmente; aplicar patches de segurança críticos em até 72h.
  • Realizar DR (Disaster Recovery) anual: simular queda do core principal.

11. Diagnóstico

Sintoma Causa Provável Ação
Perda de pacotes intermitente entre prédios Fibra com atenuação alta, conector sujo OTDR, limpeza de conectores
Convergência OSPF lenta BFD não configurado Habilitar BFD 300/300
Falha total de um prédio Uplink único rompido Adicionar segundo uplink
Wi-Fi com cobertura ruim Ap insuficiente ou mal posicionado Site survey, adicionar APs
Latência alta entre VLANs Roteamento L3 em switch de acesso sobrecarregado Migrar SVI para core

12. Conclusão

CANs representam o ponto intermediário entre a LAN de edifício único e a WAN metropolitana: compartilham muito do ferramental de LAN (Ethernet, switches, VLANs, Wi-Fi), mas já requerem considerações de fibra óptica de longa distância, roteamento dinâmico (OSPF), e redundância mais rigorosa (par de core, BFD, NSF). Compreender CANs é essencial para projetar redes de qualquer organização com mais de um prédio — o que na prática abrange a maioria das universidades, hospitais, aeroportos e grandes empresas industriais. As tendências modernas (Routed Access, SD-Access, Wi-Fi 6E/7) continuam a tornar as CANs mais resilientes, segmentadas e automatizáveis.