02 - Anel (Ring) e Propagação Unidirecional
video: https://youtu.be/... no frontmatter da nota.Anel (Ring) e Propagação Unidirecional
1. Definição e Caracterização
A topologia em anel (ring) conecta cada dispositivo a exatamente dois vizinhos, formando um ciclo fechado. Os dados trafegam em uma direção (unidirecional) ou em ambas (bidirecional), passando de nó em nó até atingir o destino. Cada nó atua como repetidor: recebe o sinal, regenera e retransmite.
Topologia:
┌──── [Host 1] ────┐
│ │
[Host 4] [Host 2]
│ │
└──── [Host 3] ────┘
→→→ (sentido único)
Características formais:
- Cada nó tem grau 2.
- Caminho mínimo entre dois nós: min(k, n-k) onde k é a distância no sentido horário.
- Diâmetro: ⌊n/2⌋.
- Conectividade de arestas λ = 2 (em anel bidirecional).
- Número de arestas: n (não-dirigido) ou 2n (dirigido).
2. Contexto Histórico
| Ano | Marco | Detalhe |
|---|---|---|
| 1969 | Cambridge Ring | Primeira rede em anel, Universidade de Cambridge |
| 1982 | IBM Token Ring (802.5) | 4 Mbps, depois 16 Mbps |
| 1985 | FDDI (ANSI X3T9.5) | 100 Mbps fibra óptica, dual-counter-rotating ring |
| 1986 | IEEE 802.5 | Padronização do Token Ring |
| 1990 | CDDI (Copper Distributed Data Interface) | FDDI sobre UTP |
| 1995 | Resilient Packet Ring (RPR, 802.17) | Anel metropolitano carrier-grade |
| 2000 | Token Ring em declínio | Switch Ethernet domina LAN |
| 2010+ | RPR em MAN, SONET/SDH | Ainda usado em carrier |
3. Tecnologias de Anel Clássicas
3.1 IBM Token Ring (IEEE 802.5)
Aparelho emblemático dos anos 80/90, concorrente da Ethernet.
Mecanismo: token passing. Um "token" (sequência de bits especiais) circula pelo anel. Apenas o nó que possui o token pode transmitir. Após enviar, libera o token para o próximo.
Características técnicas:
- Velocidades: 4 Mbps, 16 Mbps (e depois 100 Mbps com IEEE 802.5t).
- Codificação: Differential Manchester (velocidade do relógio = 2× taxa de bits).
- Frame: SD (Start Delimiter), AC (Access Control), FC (Frame Control), DA, SA, INFO, FCS (CRC-32), ED, FS (Frame Status).
- Tamanho máximo do frame: 4500 bytes (4 Mbps) ou 18000 bytes (16 Mbps).
- Endereçamento: MAC 48 bits, similar ao Ethernet.
Token Hold Timer (THT): tempo máximo que um nó pode segurar o token. Controla fairness.
3.2 FDDI (Fiber Distributed Data Interface)
Padrão ANSI/X3, popular em backbones de campus nos anos 90.
Características:
- 100 Mbps sobre fibra óptica multimodo.
- Dual counter-rotating ring: dois anéis em sentido oposto. Se um anel quebra, o outro assume o tráfego.
- Distância entre nós: até 2 km (MMF) ou 60 km (SMF).
- Até 500 nós por anel, 200 km de perímetro total.
- Codificação: 4B/5B + NRZI.
- Token passing como MAC, mas com Multiple Token mode (em vez de single token do 802.5).
┌──────────────────────────────┐
│ Primary Ring (sentido →) │
│ │
│ ◄ Secondary Ring │
└──────────────────────────────┘
Wrapping: quando uma falha ocorre, os nós adjacentes à falha conectam primário e secundário, formando um anel único de comprimento dobrado.
3.3 IEEE 802.17 RPR (Resilient Packet Ring)
Padrão moderno de anel para MANs carrier-grade, proposto para substituir SONET/SDH.
Características:
- Topologia: anel bidirecional (dois anéis contra-rotativos).
- Velocidades: 1, 2.5, 10, 40, 100 Gbps.
- Proteção steering ou wrapping em < 50 ms.
- Fairness distribuída via algorítimo RPR-fa.
- Spatial reuse: múltiplos segmentos podem operar em paralelo (segmentos do anel não-utilizados por uma transmissão são liberados para outra).
- Bandwidth não-utilizada é reutilizada localmente.
4. Token Passing e Mecanismo MAC
4.1 Princípio
Em um anel com token passing:
- Token (3 bytes em 802.5) circula de nó em nó.
- Nó com mensagem espera receber o token.
- Modifica o bit de "token" → "frame" e adiciona dados.
- Frame circula; cada nó repassa.
- Nó destino copia dados (mas não remove frame).
- Frame retorna ao remetente, que remove e libera token.
4.2 Vantagens sobre CSMA/CD
- Determinismo: tempo máximo de acesso ao meio é previsível, calculável.
- Fairness: cada nó tem vez garantida, sem starvation.
- Sem colisões: apenas um nó transmite por vez.
- Performance sob carga alta: throughput não degrada com aumento de hosts (ao contrário de CSMA/CD).
4.3 Desvantagens
- Latência proporcional ao tamanho do anel: mesmo mensagens curtas podem esperar (n-1) hops para obter token.
- Token loss: se token se perde, rede para. Protocolo de recuperação: active monitor em 802.5.
- Single break em anel simples: uma falha desconecta. Mitigado em FDDI e RPR com dual ring.
4.4 MCSMA/CA?
MCSMA/CA (Multiple Access with Collision Avoidance via tokens) é uma variação que combina token com CSMA/CA em redes sem fio (802.11 usa CSMA/CA sem token). Em redes cabeadas, puro token passing foi o paradigma clássico.
5. Tipos de Token Passing
5.1 Single Token (802.5 clássico)
Apenas um token por vez no anel. Simples mas ineficiente: o remetente deve esperar o frame retornar antes de liberar token.
5.2 Multiple Token (FDDI)
Token liberado imediatamente após o último bit do frame. Múltiplos frames podem estar no anel simultaneamente. Maior throughput.
5.3 Token Bucket (alcance hierárquico)
Nó pode segurar token por tempo proporcional à sua prioridade. Usado em redes com diferenciação de QoS.
6. Topologias Derivadas
6.1 Dual Counter-Rotating Ring (FDDI, RPR)
Dois anéis em sentidos opostos. Operação normal: primário carrega dados, secundário é standby. Em falha: nós adjacentes ao corte fazem wrap (conectam primário a secundário), mantendo serviço.
Normal: Após falha (wrap):
P→ P→ P→ P→ P→ P→ P→ P→
S← S← S← S← S← ─X─ S← S←
↘ ↙
wrap
Convergência < 50 ms em RPR/FDDI. Topologia de alta resiliência (κ = 2).
6.2 Anel Unidirecional Puro
Raro hoje; vulnerável a falhas. Cada nó tem 1 vizinho à esquerda e 1 à direita, mas transmite só em uma direção. Falha de link = rede para.
6.3 Anel Bidirecional (sem dual ring)
Em rede token-ring bidirecional, cada nó pode transmitir em qualquer direção. Mais flexível que unidirecional puro, mas perde parte do determinismo.
7. Vantagens e Desvantagens
7.1 Vantagens
- Determinismo: latência máxima previsível, essencial em tempo real (industrial).
- Fairness: sem starvation.
- Boa performance sob alta carga (vs CSMA/CD).
- Resiliência (dual ring): < 50 ms convergência após falha.
- Custo de cabos: O(n) cabos, não O(n²) como mesh.
7.2 Desvantagens
- Latência proporcional ao tamanho: cada nó adiciona hop.
- Configuração complexa: parâmetros (THT, TTRT, beaconing) requerem ajuste.
- Token loss/monitor: falhas de software no token manager param a rede.
- Throughput limitado em anéis grandes: spatial reuse (RPR) mitiga, mas não elimina.
- Adição/remoção de nós: configuração de bypass necessária.
8. Comparação: Ring vs Star vs Mesh
| Aspecto | Ring | Star | Mesh |
|---|---|---|---|
| Grau por nó | 2 (ou 4 em dual) | n-1 no centro, 1 nas pontas | n-1 (full) |
| Diâmetro | ⌊n/2⌋ (unidir.) ou ⌈n/4⌉ (dual) | 2 | 1 |
| κ-conectividade | 2 (dual ring) | 1 | n-1 |
| Custo de cabos | O(n) | O(n) | O(n²) |
| Determinismo | Alto | Baixo (switch moderno é determinístico por fluxo) | Alto |
| Escala | Limitada (centenas) | Excelente | Excelente |
| Status atual | Carrier niche (RPR) | Dominante em LAN | Hype em SD-WAN |
9. Casos de Uso Modernos
9.1 SDH/SONET (Carrier)
Embora não usem token passing, transportam TDM em anéis com proteção UPSR/BLSR/MS-SPRING. Continuam dominando backbones carrier no Brasil.
9.2 RPR em MAN
Ainda presente em redes metropolitanas de operadoras que não migraram para Ethernet/IP puro.
9.3 Anéis em Datacenter
Raro. Spine-leaf substituiu por oferecer melhores métricas.
9.4 Token em Fieldbus Industrial
Profibus DP, Foundation Fieldbus H1, Modbus RTU usam polling (mestre pergunta cada escravo em sequência) — conceitualmente similar a token passing. Determinismo essencial em automação.
9.5 Resilient Ring em Subestações
Rede IEC 61850 em subestações elétricas frequentemente usa anel RSTP/MSTP com proteção < 200 ms.
10. Detecção e Recuperação de Falhas
10.1 Beaconing (Token Ring)
Se um nó detecta perda de sinal do upstream, envia "beacon frame" com seu endereço. Beacon circula até identificar o segmento com falha.
10.2 Wrapping (FDDI/RPR)
Em falha de fibra, nós adjacentes fazem wrap. Tempo: < 50 ms em RPR.
10.3 Active Monitor (Token Ring)
Um nó é eleito active monitor: regenera o token se perdido, detecta loops. Eleições automáticas em caso de falha do monitor.
11. Performance e Métricas
| Métrica | Token Ring 16M | FDDI 100M | RPR 10G |
|---|---|---|---|
| Throughput máximo | ~16 Mbps | ~99 Mbps | ~10 Gbps (spatial reuse) |
| Latência por hop | ~10 μs | ~1 μs | < 1 μs |
| Convergência após falha | segundos | < 50 ms | < 50 ms |
| Nós máximos | 260 | 500 | 256+ |
12. Boas Práticas (em ambientes que ainda usam ring)
- Configurar TTRT (Target Token Rotation Time) adequado à carga.
- Monitorar TRT (Token Rotation Time) real vs TTRT.
- Documentar ordem física dos nós para troubleshooting.
- Testar wrapping/failover periodicamente.
- Manter nós em pares (dual-attached em FDDI) para resiliência.
13. Diagnóstico
| Sintoma | Causa Provável | Ação |
|---|---|---|
| Rede lenta periodicamente | Token perdida, recuperação lenta | Verificar active monitor |
| Beaconing frequente | Cabo com mau contato | Substituir segmento |
| Latência alta após crescimento | Anel grande demais | Quebrar em sub-anéis ou migrar para outra topologia |
| Wrap não ocorre após falha | Configuração de proteção errada | Verificar parâmetros |
14. Conclusão
A topologia em anel, embora não dominante em LANs modernas, é historicamente fundamental e ainda relevante em carriers (SDH, RPR) e nichos industriais. O conceito de token passing introduziu o princípio do determinismo em redes de pacotes — algo que a indústria revisitou em TSN (Time-Sensitive Networking) moderno para Ethernet industrial. A dual counter-rotating ring do FDDI/RPR é um dos designs mais elegantes de resiliência em redes: simples, automático e suficientemente rápido para aplicações carrier-grade. Compreender o anel, suas vantagens e limites, é essencial para qualquer engenheiro que trabalhe com redes críticas em carrier ou em automação industrial.