04 - Tipos de NAT (Estático, Dinâmico, PAT)
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1. Introdução
O NAT (Network Address Translation) tem diferentes modos de operação, cada um adequado a um cenário específico. A RFC 2663 ("IP Network Address Translator Terminology and Considerations", 1999) formalizou a terminologia, e a RFC 3022 ("Traditional IP Network Address Translator", 2001) detalhou os modos tradicionais. Os três tipos principais são:
- NAT Estático (Static NAT) — mapeamento 1-para-1 fixo.
- NAT Dinâmico (Dynamic NAT) — mapeamento 1-para-1 temporário, de um pool.
- PAT (Port Address Translation) — também chamado NAT Overload ou NAPT — mapeamento muitos-para-1, usando portas para diferenciar conexões.
Compreender as diferenças entre esses três tipos é fundamental para projetar redes que vão desde uma residência até um provedor de internet.
2. Terminologia Oficial (RFC 2663)
Antes de detalhar os tipos, é necessário conhecer a terminologia oficial:
| Termo | Significado |
|---|---|
| Inside Local (IL) | IP privado interno, antes da tradução (ex: 192.168.1.10) |
| Inside Global (IG) | IP público atribuído ao host interno, após tradução (ex: 200.150.100.50) |
| Outside Global (OG) | IP público do servidor remoto na internet (ex: 142.250.74.46) |
| Outside Local (OL) | IP como visto internamente (geralmente igual ao OG, exceto em NAT bidirecional) |
Esses quatro termos descrevem qualquer cenário NAT. A tabela NAT mapeia IL ↔ IG para conexões de saída, e OL ↔ OG para conexões de entrada.
3. NAT Estático (1-para-1)
Conceito
No NAT Estático, cada IP interno é mapeado permanentemente para um IP externo específico. O mapeamento é configurado manualmente e não muda. É uma tradução 1-para-1 fixa: o IP A interno sempre sai como IP X externo, o IP B interno sempre sai como IP Y externo, e assim por diante.
Aplicações Típicas
- Servidores internos que precisam ser acessíveis externamente (web, email, DNS).
- DMZ corporativa: cada servidor público tem um IP público dedicado.
- VPN site-to-site: cada lado conhece o IP do outro.
- Acesso a sistemas legados que exigem IP fixo (ex: mainframes com licenciamento por IP).
Configuração Cisco
! Mapeamento estático 1-para-1
ip nat inside source static 192.168.1.10 200.150.100.50
ip nat inside source static 192.168.1.11 200.150.100.51
ip nat inside source static 192.168.1.12 200.150.100.52
Vantagens
- Simplicidade: cada IP interno sempre sai com o mesmo IP externo.
- Previsibilidade: logs remotos sempre mostram o mesmo IP para o mesmo host.
- Conexões de entrada possíveis: qualquer porta pode ser acessada externamente (se o firewall permitir).
Desvantagens
- Desperdício de IPs públicos: cada host interno consome um IP público inteiro.
- Não escala: uma empresa com 1000 hosts precisaria de 1000 IPs públicos.
- Custo alto: IPs públicos são caros e escassos.
4. NAT Dinâmico (1-para-1 temporário)
Conceito
No NAT Dinâmico, há um pool de IPs públicos disponível, e os hosts internos recebem IPs desse pool temporariamente, conforme iniciam conexões. Quando a conexão termina, o IP volta ao pool.
Funcionamento
- Host interno
192.168.1.10inicia conexão. - Roteador NAT seleciona um IP livre do pool (ex:
200.150.100.50). - Cria entrada na tabela NAT: IL=
192.168.1.10↔ IG=200.150.100.50. - Pacotes são traduzidos.
- Após timeout de inatividade (tipicamente 24 horas para TCP), a entrada expira e o IP volta ao pool.
Configuração Cisco
! Definir pool de IPs públicos
ip nat pool MEU_POOL 200.150.100.50 200.150.100.99 netmask 255.255.255.0
! ACL para selecionar quais hosts internos fazem NAT
access-list 1 permit 192.168.1.0 0.0.0.255
! Aplicar NAT dinâmico
ip nat inside source list 1 pool MEU_POOL
Vantagens
- Eficiência: se nem todos os hosts estão conectados simultaneamente, um pool pequeno atende a muitos hosts.
- Flexibilidade: hosts diferentes podem sair com IPs públicos diferentes a cada conexão.
- Economia: menos IPs públicos que número total de hosts internos.
Desvantagens
- Conexões de entrada difíceis: o IP externo muda, então servidores internos não podem ser acessados externamente sem configuração adicional.
- Ainda exige muitos IPs: para 1000 hosts, talvez seja necessário um pool de 200-500 IPs.
- Timeout pode causar problemas: conexões longas (FTP, downloads grandes) podem cair se o NAT expirar.
5. PAT (Port Address Translation / NAT Overload)
Conceito
PAT é a forma mais sofisticada de NAT. Em vez de mapear IPs, mapeia IP + Porta. Isso permite que múltiplos hosts internos compartilhem o mesmo IP público, diferenciados pela porta de origem.
É o tipo de NAT usado em virtualmente todas as residências e pequenas empresas — é o que permite que uma casa com 20 dispositivos conectados funcione com um único IP público.
Funcionamento Passo a Passo
- Host
192.168.1.10envia pacote TCP para142.250.74.46:443, porta de origem50000. - Host
192.168.1.11também envia pacote TCP para142.250.74.46:443, porta de origem50000. - Roteador NAT traduz ambos os pacotes para o mesmo IP público
200.150.100.50, mas altera as portas de origem:
- Pacote 1: origem192.168.1.10:50000→200.150.100.50:50001
- Pacote 2: origem192.168.1.11:50000→200.150.100.50:50002 - Tabela NAT registra:
-200.150.100.50:50001↔192.168.1.10:50000(sessão A)
-200.150.100.50:50002↔192.168.1.11:50000(sessão B) - Quando o servidor responde para
200.150.100.50:50001, o NAT consulta a tabela e entrega a192.168.1.10.
Capacidade Teórica
Cada IP público suporta até 65.535 portas (excluindo portas privilegiadas, na prática ~64.000). Em teoria, um único IP público poderia servir 64.000 conexões simultâneas. Na prática, com timeout de 60 segundos, isso atende milhares de hosts em uma rede corporativa.
Configuração Cisco
! ACL para selecionar hosts
access-list 1 permit 192.168.1.0 0.0.0.255
! PAT usando IP da interface externa (overload)
ip nat inside source list 1 interface GigabitEthernet0/1 overload
A palavra-chave overload ativa o PAT. Sem ela, seria NAT dinâmico tradicional.
Configuração Linux (iptables)
# Habilitar IP forwarding
echo 1 > /proc/sys/net/ipv4/ip_forward
# PAT na interface eth0 (IP público)
iptables -t nat -A POSTROUTING -s 192.168.1.0/24 -o eth0 -j MASQUERADE
O alvo MASQUERADE é equivalente ao overload da Cisco, usando o IP da interface de saída.
Vantagens
- Máxima economia de IPs: milhares de hosts compartilham um único IP público.
- Padrão de facto: funciona em qualquer roteador doméstico.
- Transparente para o usuário: nenhuma configuração adicional nos hosts.
Desvantagens
- Quebra o modelo fim-a-fim: hosts internos não podem receber conexões de entrada sem port forwarding.
- Degradação em cargas altas: se muitas conexões simultâneas, pode haver exaustão de portas.
- Problemas com protocolos antigos: FTP ativo, SIP antigo, H.323 exigem ALG (Application Layer Gateway) para funcionar através de PAT.
- Logging mais complexo: logs externos mostram apenas o IP do NAT, não o host interno.
6. Tabela Comparativa dos Três Tipos
| Característica | Estático | Dinâmico | PAT (Overload) |
|---|---|---|---|
| Mapeamento | 1-para-1 fixo | 1-para-1 temporário | Muitos-para-1 |
| Uso de portas | Não altera | Não altera | Altera |
| Conexões de entrada | Sim, todas as portas | Difícil (IP varia) | Não (sem port forward) |
| Economia de IPs | Baixa (1 IP por host) | Média (pool compartilhado) | Alta (1 IP para milhares) |
| Custo | Alto | Médio | Baixo |
| Aplicações | Servidores públicos | Ambientes mistos | Residências, escritórios |
| Configuração | Manual por host | Pool + ACL | Pool ou interface + overload |
7. Casos de Uso Típicos
Cenário 1: Residência
- Necessidade: 5-10 dispositivos compartilham 1 IP público do provedor.
- Solução: PAT simples.
- Configuração: roteador Wi-Fi padrão.
Cenário 2: Pequena Empresa
- Necessidade: 50 funcionários + 1 servidor web acessível externamente.
- Solução: PAT para usuários + NAT estático para o servidor.
- Configuração:
ip nat inside source static tcp 192.168.1.10 80 200.150.100.50 80 ip nat inside source list 1 interface Gi0/1 overload
Cenário 3: Média Empresa
- Necessidade: 500 funcionários + 5 servidores web + servidores de email.
- Solução: NAT dinâmico com pool para usuários + NAT estático para servidores.
- Configuração:
- Pool público /29 (5 IPs utilizáveis) para servidores (NAT estático).
- Pool público /28 (13 IPs utilizáveis) para usuários (NAT dinâmico).
- Ou apenas PAT para usuários.
Cenário 4: Provedor de Internet (CGNAT)
- Necessidade: 100.000 clientes compartilham 1.000 IPs públicos.
- Solução: CGN (Carrier-Grade NAT), usando faixa 100.64.0.0/10 internamente.
- Escala: cada IP público atende até 4.000 clientes (limitado por portas).
8. Problemas Comuns e Troubleshooting
Problema 1: Conexões Não Chegam ao Destino
Sintoma: Host interno envia pacote, mas resposta não chega.
Causas possíveis:
- ACL do NAT não inclui a faixa do host.
- Tabela NAT cheia (exaustão de portas em PAT).
- Timeout muito curto para a aplicação (FTP, BGP).
Diagnóstico:
show ip nat translations # Ver entradas ativas
show ip nat statistics # Ver estatísticas
clear ip nat translation * # Limpar todas
Problema 2: FTP Ativo Não Funciona
Causa: FTP ativo envia o IP interno no comando PORT, quebrando NAT.
Solução: habilitar ALG de FTP:
ip nat service ftp-server tcp 21
# ou no Linux
modprobe nf_nat_ftp
modprobe nf_conntrack_ftp
Problema 3: VOIP/SIP Não Funciona
Causa: SIP embute IPs e portas no SDP, que NAT não altera.
Solução: SIP ALG (geralmente habilitado por padrão em roteadores SOHO, mas às vezes precisa ser desabilitado para alguns provedores).
9. Boas Práticas
- Usar PAT para usuários finais — máxima economia de IPs.
- Usar NAT estático para servidores — acessibilidade externa garantida.
- Documentar cada mapeamento em IPAM.
- Monitorar exaustão de portas em CGNAT (cuidado com usuários pesados P2P).
- Desabilitar SIP ALG se causa problemas — muitos roteadores SOHO têm implementação defeituosa.
- Configurar timeouts apropriados por protocolo (TCP 24h, UDP 5min, ICMP 1min).
- Em ambientes cloud, usar NAT Gateways gerenciados (AWS NAT Gateway, Azure NAT Gateway) ao invés de instâncias NAT caseiras.
10. NAT e IPv6
No IPv6, NAT não é necessário para conservação de endereços — o espaço é vasto (2128). No entanto, NAT66 existe para casos específicos:
- Ula (Unique Local Addresses, fc00::/7) para redes internas que precisam de tradução na borda.
- NPTv6 (Network Prefix Translation, RFC 6296) para tradução de prefixo sem alterar portas.
Em geral, em IPv6 recomenda-se atribuir endereços globais diretamente aos hosts, sem NAT. A arquitetura original fim-a-fim é restaurada.
11. Resumo
Os três tipos de NAT atendem necessidades distintas:
- Estático: para servidores acessíveis externamente.
- Dinâmico: para ambientes mistos com pool de IPs disponível.
- PAT: para residências e escritórios com milhares de hosts e poucos IPs públicos.
Escolher o tipo correto é uma decisão de projeto que impacta custo, escalabilidade e segurança. Na prática, redes modernas combinam PAT para usuários com NAT estático para servidores — o melhor de dois mundos. Com o avanço do IPv6, a importância do NAT deve diminuir gradualmente, mas ele continuará presente em redes IPv4 por décadas.