02 - Classe B (16 bits)
video: https://youtu.be/... no frontmatter da nota.Classe B (16 bits de rede)
1. Definição e Identificação
A Classe B é a segunda categoria do sistema histórico de classes IPv4. Sua assinatura binária começa com os bits 10 no primeiro octeto, permitindo identificação imediata pela inspeção dos dois primeiros bits. Esse esquema foi projetado para atender organizações de médio a grande porte que necessitavam de mais endereços do que a Classe C oferecia, mas não justificavam a escala colossal da Classe A.
Características Formais
- Bits iniciais fixos:
10 - Intervalo binário do primeiro octeto:
10000000a10111111 - Intervalo decimal do primeiro octeto:
128a191 - Máscara padrão:
255.255.0.0(ou/16em notação CIDR) - RFC de referência: RFC 790 (1981), RFC 1812 (1995, substituiu o uso estrito)
Faixas Privadas e Especiais
| Faixa | Função |
|---|---|
| 172.16.0.0/12 | IP Privado (RFC 1918) — subfaixa da Classe B reservada para uso interno |
| 169.254.0.0/16 | APIPA (Link-Local) — definida pela RFC 3927 |
A faixa privada da RFC 1918 dentro da Classe B abrange de 172.16.0.0 a 172.31.255.255, totalizando 16 blocos /16 consecutivos (172.16 até 172.31), ou seja, 1.048.576 endereços (220).
2. Estrutura Hierárquica
Na Classe B, os dois primeiros octetos (16 bits) identificam a rede, e os outros 16 bits ficam para hosts. Isso equilibra quantidade de redes e hosts por rede, justificando sua adoção por universidades e empresas médias.
Análise de Capacidade
- Bits para identificação de rede: Como os dois primeiros bits são fixos (
10), restam 14 bits variáveis. Isso gera2^14 = 16.384redes possíveis. - Hosts por rede:
2^16 − 2 = 65.534endereços utilizáveis (subtraindo rede e broadcast). - Total de endereços na Classe B:
16.384 × 65.534 ≈ 1,07 bilhão de endereços, ou seja, cerca de 25% do espaço IPv4 unicast.
3. Distribuição Histórica
A Classe B foi amplamente distribuída para universidades, instituições de pesquisa e grandes empresas nas décadas de 1980 e 1990. Alguns exemplos notáveis:
| Bloco /16 | Organização |
|---|---|
| 128.0.0.0/16 | Variados — sub-dividido pela IANA |
| 128.2.0.0/16 | Carnegie Mellon University |
| 128.32.0.0/16 | University of California, Berkeley |
| 128.103.0.0/16 | Harvard University |
| 128.213.0.0/16 | CERN |
| 130.37.0.0/16 | TNO (Holanda) |
| 131.107.0.0/16 | Microsoft (historicamente) |
| 134.0.0.0/16 | MCI Communications |
| 155.1.0.0/16 | Universidade de São Paulo (USP) |
| 157.86.0.0/16 | Banespa |
| 159.115.0.0/16 | Embratel |
No Brasil, a FAPESP e o Comitê Gestor da Internet br (CGI.br) administram boa parte dos blocos Classe B brasileiros. Empresas como Embratel, Telebrás e universidades federais receberam blocos /16 que ainda usam hoje internamente.
4. Por que a Classe B Existiu?
Cenário Típico de Uso
Nos anos 1980, uma universidade típica tinha entre 5 mil e 60 mil dispositivos conectados (laboratórios, servidores, estações de trabalho). A Classe C (254 hosts) era pequena demais; a Classe A (16 milhões) era absurdamente grande. A Classe B, com 65.534 hosts, calibrava-se perfeitamente ao perfil de uma organização média.
Roteamento Simplificado
O roteador da época precisava de uma única comparação de dois bits para identificar a classe:
Se bits 0-1 = 10 → Classe B, máscara 255.255.0.0
Isso eliminava a necessidade de transmitir a máscara junto com o endereço IP no cabeçalho — uma economia de bytes preciosa em links lentos da época (T1 = 1,544 Mbps, X.25 = 64 Kbps).
5. O Problema do Crescimento Acelerado
Desperdício Estrutural
A Classe B foi a primeira a sofrer pressão de esgotamento. O motivo é matemático: muitas empresas tinham ~500 hosts, mas pediam Classe B porque Classe C (254 hosts) não dava conta. Isso deixava 65.000 endereços parados por bloco.
Em 1990, o RFC 1174 já alertava: "se continuarmos a alocar Classe B ao ritmo atual, esgotaremos o espaço IPv4 em menos de 4 anos". A IANA começou a recusar pedidos de Classe B sem justificativa detalhada de uso.
Tabelas de Roteamento Globais
Cada bloco /16 anunciado na internet virava uma rota na DFZ. Em 1994, havia ~20.000 rotas — era o limite que roteadores Cisco 7000 conseguiam gerenciar. Projeções indicavam 100.000 rotas até 2000, o que excederia a memória dos roteadores da época. CIDR resolveu isso permitindo agregar /24 em /16 e /16 em /8.
6. Transição para CIDR
A RFC 1519 (1993) desativou as classes como mecanismo de roteamento. Hoje, qualquer bloco /16 pode ser subdividido em /17, /18, /19, etc., ou agregado com outros /16 adjacentes em um /15 ou /14. A classe passou a ser apenas uma referência didática e histórica.
A IANA parou de distribuir novos blocos /16 públicos para empresas individuais desde meados dos anos 2000. Os blocos existentes continuam ativos e são negociados no mercado secundário, com valores na faixa de US$ 20 a US$ 50 por IP (preço de 2024), o que coloca um /16 inteiro na faixa de US$ 1,3 a US$ 3,3 milhões.
7. Uso Moderno
Cenário Típico Moderno
Uma empresa que ainda possui um bloco /16 herdado normalmente:
- Subdivide em /24 internamente (256 sub-redes de 254 hosts).
- Aloca /24 por VLAN (cada departamento recebe uma sub-rede).
- Agrega na borda — anuncia apenas o /16 para o provedor, mantendo a tabela BGP global enxuta.
Faixa Privada 172.16.0.0/12
A subfaixa privada da Classe B é 172.16.0.0/12, abrangendo:
- Máscara:
255.240.0.0 - Faixa:
172.16.0.0a172.31.255.255 - Total: 1.048.576 endereços
Essa faixa é amplamente utilizada em redes corporativas médias. É o default de muitos roteadores de marcas como Mikrotik e TP-Link em modo "WISP".
8. Vantagens e Desvantagens
Vantagens Históricas
- Tamanho adequado para a maioria das organizações médias (5.000 a 60.000 hosts).
- Identificação rápida por roteadores antigos via 2 bits.
- Máscara caía em octeto — facilitava cálculo mental (sem binário).
Desvantagens
- Tamanho rígido: ou 254 hosts (C) ou 65 mil (B) — sem meio-termo. Isso levou ao desperdício.
- Pressão de esgotamento: Classe B foi a primeira a entrar em crise.
- Distribuição desigual: EUA e Europa receberam a maioria, enquanto Ásia e América Latina ficaram com poucos /16, gerando desequilíbrio histórico até hoje.
9. Analogia Didática: O Estado
Se a Classe A é um país, a Classe B é um estado:
- Existem milhares de estados (16.384 redes /16).
- Cada estado abriga dezenas de milhares de cidadãos (65 mil hosts).
- Estados se subdividem em municípios (sub-redes /24).
10. Resumo Técnico
| Atributo | Valor |
|---|---|
| Bits iniciais | 10 |
| Primeiro octeto (decimal) | 128 a 191 |
| Máscara padrão | 255.255.0.0 (/16) |
| Bits de rede | 16 |
| Bits de host | 16 |
| Redes possíveis | 16.384 |
| Hosts por rede | 65.534 |
| Faixa privada | 172.16.0.0/12 (RFC 1918) |
| Status atual | Obsoleta como classe; /16 ainda usado como unidade administrativa |
11. Conclusão
A Classe B representou o "meio termo" do modelo classful — nem muito grande (A), nem muito pequeno (C). Foi também a primeira a revelar as falhas do modelo, com desperdício estrutural e pressão sobre as tabelas de roteamento. Sua herança persiste: o /16 permanece como uma das unidades mais comuns de alocação em redes corporativas, especialmente na faixa privada 172.16.0.0/12. Entender a Classe B é compreender a base do endereçamento IPv4 moderno em ambientes médios.