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10 - IPv4

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IPv4 — Visão Geral

O IPv4 (Internet Protocol version 4) é a quarta versão do Protocolo de Internet e a primeira a ser amplamente implantada em escala global. Padronizado em 1981 pela RFC 791 (que substituiu a RFC 760 de 1980), o IPv4 permanece até hoje como o protocolo dominante na camada de rede da internet, apesar de o esgotamento de seu espaço de endereçamento já ter sido declarado oficialmente em 2011.

Este documento serve como síntese da pasta IPv4 — contextualização histórica, características principais, estruturas de endereçamento e visão integrada dos temas tratados nos arquivos irmãos desta seção.

1. Histórico

Linha do Tempo das RFCs

Ano RFC Marco
1974 RFC 675 Especificação TCP/IP inicial (Cerf/Kahn)
1980 RFC 760 Internet Protocol (precursora)
1981 RFC 791 Especificação clássica do IPv4
1981 RFC 790 Classes A/B/C/D/E (obsoleto por CIDR)
1985 RFC 950 Subnetting (máscara de sub-rede)
1987 RFC 1009 Roteadores em sub-redes múltiplas
1993 RFC 1518/1519 CIDR (fim das classes rígidas)
1996 RFC 1918 Endereçamento privado
1998 RFC 1918 / 3022 PAT e NAT em larga escala
2011 — Esgotamento do pool IANA
2011–2020 — Esgotamento dos pools dos 5 RIRs

O IPv4 foi projetado para uma internet de poucos milhares de hosts (ARPANET). Suas decisões arquiteturais — 32 bits, classes, fragmentação em roteadores — refletem o hardware e as expectativas de 1981, e hoje são consideradas obsoletas pela prática moderna.

2. A Anatomia do Endereço IPv4

Um endereço IPv4 é um número binário de 32 bits, tradicionalmente representado em decimal pontuado — quatro octetos (8 bits cada) separados por pontos.

  • Menor endereço possível: 0.0.0.0 (00000000.00000000.00000000.00000000)
  • Maior endereço possível: 255.255.255.255 (11111111.11111111.11111111.11111111)
  • Total teórico: $2^{32} = 4.294.967.296$ endereços (4,3 bilhões).

Divisão Lógica: Rede + Host

Cada endereço IPv4 é dividido em duas porções:

Porção Função
Parte de Rede (Net ID) Identifica a sub-rede
Parte de Host (Host ID) Identifica o dispositivo dentro da sub-rede

O tamanho de cada porção é definido pela máscara de sub-rede (decimal) ou pela notação CIDR (ex: /24).

3. Modelo de Serviço

O IPv4 segue o paradigma de Best-Effort:

  1. Sem conexão (connectionless): não há estabelecimento de sessão prévia. Cada pacote é tratado independentemente.
  2. Independência de meio: opera sobre Ethernet, Wi-Fi, fibra, satélite, PPP, frame relay, etc.
  3. Não confiável (unreliable): não garante entrega, ordem ou ausência de duplicação. A confiabilidade fica a cargo de L4 (TCP) ou da aplicação.
  4. Sem estado (stateless): roteadores não mantêm informação sobre fluxos.

4. Classes de Endereço (Histórico)

O modelo original (RFC 790) dividia o espaço IPv4 em 5 classes, identificadas pelos primeiros bits do primeiro octeto:

Classe Bits iniciais Faixa do 1º octeto Máscara Redes Hosts/rede
A 0 1–126 /8 (255.0.0.0) 126 16.777.214
B 10 128–191 /16 (255.255.0.0) 16.384 65.534
C 110 192–223 /24 (255.255.255.0) 2.097.152 254
D 1110 224–239 — — Multicast
E 1111 240–255 — — Reservado

Por que as classes morreram

O modelo de classes desperdiçava espaço (uma empresa com 1000 hosts recebia uma Classe B com 65 mil endereços). Em 1993, a RFC 1519 (CIDR) aboliu o uso estrito das classes: roteadores passaram a exigir a máscara explicitamente em cada rota. Hoje, "Classe A/B/C" é apenas referência histórica — o que importa é o tamanho do prefixo CIDR.

5. Tópicos Cobertos na Pasta IPv4

A pasta 01 - IPv4 está estruturada em 10 subtópicos:

  1. Características Técnicas — 32 bits, octetos, representação binária/decimal.
  2. Hierarquia de Endereço — separação Rede/Host, máscara de sub-rede.
  3. Classes de Endereço — modelo histórico A/B/C/D/E, transição para CIDR.
  4. Tipos de Endereço — rede, broadcast, loopback, host, APIPA.
  5. Máscara de Sub-Rede e CIDR — AND bit-a-bit, tabela CIDR completa, wildcard.
  6. Subnetting e VLSM — FLSM vs VLSM, RFC 950/1009, planejamento.
  7. IPs Públicos e Privados (RFC 1918) e NAT — faixas privadas, NAT/PAT, Carrier-Grade NAT.
  8. APIPA — autoconfiguração em 169.254.0.0/16, detecção de falhas DHCP.
  9. Fragmentação de Pacotes e MTU — campos DF/MF/MF, PMTUD, MSS clamping.
  10. IPv4 — Visão Geral (este documento).

6. Conceitos-Chave por Subtópico

Características Técnicas

  • 32 bits em 4 octetos, representação decimal pontuada.
  • Cabeçalho de 20 a 60 bytes (variável, com opções raramente usadas).
  • Campos: Version, IHL, ToS, Total Length, Identification, Flags (DF/MF), Fragment Offset, TTL, Protocol, Header Checksum, Src/Dst.

Máscara de Sub-Rede e CIDR

  • Máscara decimal (255.255.255.0) ou CIDR (/24).
  • Tabela CIDR completa de /0 (default route) a /32 (host único).
  • Cálculo mental: $256 - \text{octeto da máscara} = \text{tamanho da sub-rede}$.
  • Wildcard masks (Cisco ACLs): complemento bit-a-bit da máscara.

Subnetting e VLSM

  • FLSM: todas as sub-redes têm o mesmo tamanho (RFC 950 clássico).
  • VLSM: sub-redes de tamanhos diferentes dentro da mesma rede (RFC 1009, 1812).
  • Aplicações: campus, datacenter, filiais, cloud.

IPs Públicos e Privados

  • Públicos: roteáveis globalmente, atribuídos por IANA/RIR.
  • Privados (RFC 1918): 10.0.0.0/8, 172.16.0.0/12, 192.168.0.0/16. Reutilizáveis em milhões de redes.
  • NAT/PAT: tradução na borda, conversão de muitos privados para um público (porta diferenciadora).
  • Carrier-Grade NAT (RFC 6598): 100.64.0.0/10 — operadoras usam NAT duplo.

APIPA

  • Faixa 169.254.0.0/16 para autoconfiguração quando não há DHCP.
  • Hosts escolhem aleatoriamente e verificam conflito via ARP.
  • Indicador visual de falha de DHCP.

Fragmentação e MTU

  • MTU Ethernet padrão: 1500 bytes.
  • IPv4 permite fragmentação em roteadores intermediários (caro em CPU).
  • Flags DF (Don't Fragment) e MF (More Fragments).
  • PMTUD (RFC 1191) descobre o MTU mínimo do caminho.

7. Esgotamento do IPv4 e Estratégias de Sobrevida

Com apenas 4,3 bilhões de endereços, o estoque se esgotou:

  • IANA: pool esgotado em 3 de fevereiro de 2011.
  • APNIC: 15 de abril de 2011.
  • RIPE NCC: 3 de setembro de 2012.
  • LACNIC: 11 de junho de 2014.
  • ARIN: 24 de setembro de 2015.
  • AFRINIC: 31 de março de 2020 (último RIR).

Mecanismos de Sobrevida

Mecanismo Como funciona Limitação
NAT/PAT Múltiplos hosts privados por IP público Quebra modelo fim-a-fim, dificulta P2P/VoIP
CIDR Agregação de rotas, sub-redes sob medida Não cria novos endereços
VLSM Sub-redes dimensionadas ao uso Não cria novos endereços
RFC 1918 Endereçamento privado reutilizável Exige NAT na borda
Carrier-Grade NAT Operadora usa 100.64.0.0/10 NAT duplo, performance e rastreabilidade
Mercado secundário Compra/venda de blocos Caro, regulado por RIRs
IPv6 Espaço de $2^{128}$ endereços Não é compatível com IPv4, exige transição

8. Comparação com IPv6

Característica IPv4 IPv6
Bits 32 128
Endereços totais 4,3 bilhões 340 undecilhões
Cabeçalho 20–60 bytes (variável) 40 bytes (fixo)
Notação Decimal pontuado Hexadecimal com :
Broadcast Sim Não (multicast)
NAT Quase obrigatório Dispensável
Autoconfiguração DHCP/APIPA SLAAC nativo
IPsec Opcional Integrado
Fragmentação em roteadores Sim Não (apenas host de origem)
Status Em transição Adaptação crescente

9. O Futuro do IPv4

O IPv4 não vai desaparecer tão cedo. Mecanismos como 464XLAT (RFC 6877), DS-Lite (RFC 6333), MAP-E/MAP-T permitem que redes IPv6-only acessem conteúdo IPv4-only. Em ambientes corporativos, o dual-stack continuará por décadas. No entanto, todo novo projeto de rede deve considerar o IPv6 como cidadão de primeira classe — não como complemento opcional.

10. Conclusão

O IPv4 é o protocolo que conectou o mundo. Apesar de suas limitações (32 bits, classes obsoletas, dependência de NAT), suas decisões arquiteturais — simplicidade, robustez, independência de meio — provaram-se suficientes para sustentar a internet por mais de 40 anos. Compreender o IPv4 em profundidade é pré-requisito para qualquer engenheiro de redes: o subnetting, a máscara, o CIDR, o NAT e o ARP são ferramentas cotidianas que sobreviverão à transição para o IPv6. Os 9 subtópicos desta pasta cobrem o conhecimento essencial para projetar, configurar e diagnosticar redes IPv4 modernas.