10 - IPv4
video: https://youtu.be/... no frontmatter da nota.IPv4 — Visão Geral
O IPv4 (Internet Protocol version 4) é a quarta versão do Protocolo de Internet e a primeira a ser amplamente implantada em escala global. Padronizado em 1981 pela RFC 791 (que substituiu a RFC 760 de 1980), o IPv4 permanece até hoje como o protocolo dominante na camada de rede da internet, apesar de o esgotamento de seu espaço de endereçamento já ter sido declarado oficialmente em 2011.
Este documento serve como síntese da pasta IPv4 — contextualização histórica, características principais, estruturas de endereçamento e visão integrada dos temas tratados nos arquivos irmãos desta seção.
1. Histórico
Linha do Tempo das RFCs
| Ano | RFC | Marco |
|---|---|---|
| 1974 | RFC 675 | Especificação TCP/IP inicial (Cerf/Kahn) |
| 1980 | RFC 760 | Internet Protocol (precursora) |
| 1981 | RFC 791 | Especificação clássica do IPv4 |
| 1981 | RFC 790 | Classes A/B/C/D/E (obsoleto por CIDR) |
| 1985 | RFC 950 | Subnetting (máscara de sub-rede) |
| 1987 | RFC 1009 | Roteadores em sub-redes múltiplas |
| 1993 | RFC 1518/1519 | CIDR (fim das classes rígidas) |
| 1996 | RFC 1918 | Endereçamento privado |
| 1998 | RFC 1918 / 3022 | PAT e NAT em larga escala |
| 2011 | — | Esgotamento do pool IANA |
| 2011–2020 | — | Esgotamento dos pools dos 5 RIRs |
O IPv4 foi projetado para uma internet de poucos milhares de hosts (ARPANET). Suas decisões arquiteturais — 32 bits, classes, fragmentação em roteadores — refletem o hardware e as expectativas de 1981, e hoje são consideradas obsoletas pela prática moderna.
2. A Anatomia do Endereço IPv4
Um endereço IPv4 é um número binário de 32 bits, tradicionalmente representado em decimal pontuado — quatro octetos (8 bits cada) separados por pontos.
- Menor endereço possível:
0.0.0.0(00000000.00000000.00000000.00000000) - Maior endereço possível:
255.255.255.255(11111111.11111111.11111111.11111111) - Total teórico: $2^{32} = 4.294.967.296$ endereços (4,3 bilhões).
Divisão Lógica: Rede + Host
Cada endereço IPv4 é dividido em duas porções:
| Porção | Função |
|---|---|
| Parte de Rede (Net ID) | Identifica a sub-rede |
| Parte de Host (Host ID) | Identifica o dispositivo dentro da sub-rede |
O tamanho de cada porção é definido pela máscara de sub-rede (decimal) ou pela notação CIDR (ex: /24).
3. Modelo de Serviço
O IPv4 segue o paradigma de Best-Effort:
- Sem conexão (connectionless): não há estabelecimento de sessão prévia. Cada pacote é tratado independentemente.
- Independência de meio: opera sobre Ethernet, Wi-Fi, fibra, satélite, PPP, frame relay, etc.
- Não confiável (unreliable): não garante entrega, ordem ou ausência de duplicação. A confiabilidade fica a cargo de L4 (TCP) ou da aplicação.
- Sem estado (stateless): roteadores não mantêm informação sobre fluxos.
4. Classes de Endereço (Histórico)
O modelo original (RFC 790) dividia o espaço IPv4 em 5 classes, identificadas pelos primeiros bits do primeiro octeto:
| Classe | Bits iniciais | Faixa do 1º octeto | Máscara | Redes | Hosts/rede |
|---|---|---|---|---|---|
| A | 0 |
1–126 | /8 (255.0.0.0) |
126 | 16.777.214 |
| B | 10 |
128–191 | /16 (255.255.0.0) |
16.384 | 65.534 |
| C | 110 |
192–223 | /24 (255.255.255.0) |
2.097.152 | 254 |
| D | 1110 |
224–239 | — | — | Multicast |
| E | 1111 |
240–255 | — | — | Reservado |
Por que as classes morreram
O modelo de classes desperdiçava espaço (uma empresa com 1000 hosts recebia uma Classe B com 65 mil endereços). Em 1993, a RFC 1519 (CIDR) aboliu o uso estrito das classes: roteadores passaram a exigir a máscara explicitamente em cada rota. Hoje, "Classe A/B/C" é apenas referência histórica — o que importa é o tamanho do prefixo CIDR.
5. Tópicos Cobertos na Pasta IPv4
A pasta 01 - IPv4 está estruturada em 10 subtópicos:
- Características Técnicas — 32 bits, octetos, representação binária/decimal.
- Hierarquia de Endereço — separação Rede/Host, máscara de sub-rede.
- Classes de Endereço — modelo histórico A/B/C/D/E, transição para CIDR.
- Tipos de Endereço — rede, broadcast, loopback, host, APIPA.
- Máscara de Sub-Rede e CIDR — AND bit-a-bit, tabela CIDR completa, wildcard.
- Subnetting e VLSM — FLSM vs VLSM, RFC 950/1009, planejamento.
- IPs Públicos e Privados (RFC 1918) e NAT — faixas privadas, NAT/PAT, Carrier-Grade NAT.
- APIPA — autoconfiguração em
169.254.0.0/16, detecção de falhas DHCP. - Fragmentação de Pacotes e MTU — campos DF/MF/MF, PMTUD, MSS clamping.
- IPv4 — Visão Geral (este documento).
6. Conceitos-Chave por Subtópico
Características Técnicas
- 32 bits em 4 octetos, representação decimal pontuada.
- Cabeçalho de 20 a 60 bytes (variável, com opções raramente usadas).
- Campos: Version, IHL, ToS, Total Length, Identification, Flags (DF/MF), Fragment Offset, TTL, Protocol, Header Checksum, Src/Dst.
Máscara de Sub-Rede e CIDR
- Máscara decimal (
255.255.255.0) ou CIDR (/24). - Tabela CIDR completa de
/0(default route) a/32(host único). - Cálculo mental: $256 - \text{octeto da máscara} = \text{tamanho da sub-rede}$.
- Wildcard masks (Cisco ACLs): complemento bit-a-bit da máscara.
Subnetting e VLSM
- FLSM: todas as sub-redes têm o mesmo tamanho (RFC 950 clássico).
- VLSM: sub-redes de tamanhos diferentes dentro da mesma rede (RFC 1009, 1812).
- Aplicações: campus, datacenter, filiais, cloud.
IPs Públicos e Privados
- Públicos: roteáveis globalmente, atribuídos por IANA/RIR.
- Privados (RFC 1918):
10.0.0.0/8,172.16.0.0/12,192.168.0.0/16. Reutilizáveis em milhões de redes. - NAT/PAT: tradução na borda, conversão de muitos privados para um público (porta diferenciadora).
- Carrier-Grade NAT (RFC 6598):
100.64.0.0/10— operadoras usam NAT duplo.
APIPA
- Faixa
169.254.0.0/16para autoconfiguração quando não há DHCP. - Hosts escolhem aleatoriamente e verificam conflito via ARP.
- Indicador visual de falha de DHCP.
Fragmentação e MTU
- MTU Ethernet padrão: 1500 bytes.
- IPv4 permite fragmentação em roteadores intermediários (caro em CPU).
- Flags DF (Don't Fragment) e MF (More Fragments).
- PMTUD (RFC 1191) descobre o MTU mínimo do caminho.
7. Esgotamento do IPv4 e Estratégias de Sobrevida
Com apenas 4,3 bilhões de endereços, o estoque se esgotou:
- IANA: pool esgotado em 3 de fevereiro de 2011.
- APNIC: 15 de abril de 2011.
- RIPE NCC: 3 de setembro de 2012.
- LACNIC: 11 de junho de 2014.
- ARIN: 24 de setembro de 2015.
- AFRINIC: 31 de março de 2020 (último RIR).
Mecanismos de Sobrevida
| Mecanismo | Como funciona | Limitação |
|---|---|---|
| NAT/PAT | Múltiplos hosts privados por IP público | Quebra modelo fim-a-fim, dificulta P2P/VoIP |
| CIDR | Agregação de rotas, sub-redes sob medida | Não cria novos endereços |
| VLSM | Sub-redes dimensionadas ao uso | Não cria novos endereços |
| RFC 1918 | Endereçamento privado reutilizável | Exige NAT na borda |
| Carrier-Grade NAT | Operadora usa 100.64.0.0/10 |
NAT duplo, performance e rastreabilidade |
| Mercado secundário | Compra/venda de blocos | Caro, regulado por RIRs |
| IPv6 | Espaço de $2^{128}$ endereços | Não é compatível com IPv4, exige transição |
8. Comparação com IPv6
| Característica | IPv4 | IPv6 |
|---|---|---|
| Bits | 32 | 128 |
| Endereços totais | 4,3 bilhões | 340 undecilhões |
| Cabeçalho | 20–60 bytes (variável) | 40 bytes (fixo) |
| Notação | Decimal pontuado | Hexadecimal com : |
| Broadcast | Sim | Não (multicast) |
| NAT | Quase obrigatório | Dispensável |
| Autoconfiguração | DHCP/APIPA | SLAAC nativo |
| IPsec | Opcional | Integrado |
| Fragmentação em roteadores | Sim | Não (apenas host de origem) |
| Status | Em transição | Adaptação crescente |
9. O Futuro do IPv4
O IPv4 não vai desaparecer tão cedo. Mecanismos como 464XLAT (RFC 6877), DS-Lite (RFC 6333), MAP-E/MAP-T permitem que redes IPv6-only acessem conteúdo IPv4-only. Em ambientes corporativos, o dual-stack continuará por décadas. No entanto, todo novo projeto de rede deve considerar o IPv6 como cidadão de primeira classe — não como complemento opcional.
10. Conclusão
O IPv4 é o protocolo que conectou o mundo. Apesar de suas limitações (32 bits, classes obsoletas, dependência de NAT), suas decisões arquiteturais — simplicidade, robustez, independência de meio — provaram-se suficientes para sustentar a internet por mais de 40 anos. Compreender o IPv4 em profundidade é pré-requisito para qualquer engenheiro de redes: o subnetting, a máscara, o CIDR, o NAT e o ARP são ferramentas cotidianas que sobreviverão à transição para o IPv6. Os 9 subtópicos desta pasta cobrem o conhecimento essencial para projetar, configurar e diagnosticar redes IPv4 modernas.