02 - TLD (Top-Level Domains)
video: https://youtu.be/... no frontmatter da nota.TLD (Top-Level Domains)
1. Definição e Papel na Hierarquia
Um Top-Level Domain (TLD) é o componente mais à direita de um nome de domínio, logo após o último ponto. Em www.exemplo.com.br, o TLD é .br. Em mail.google.com, o TLD é .com. Os TLDs são a primeira subdivisão abaixo da raiz no DNS, e cada um é delegado pela IANA a um operador responsável por manter os servidores autoritativos e o registro de domínios de segundo nível.
A lista oficial de TLDs é publicada e atualizada continuamente pela IANA em https://www.iana.org/domains/root/db. Em 2024, existem mais de 1.500 TLDs ativos, divididos em categorias funcionais distintas.
2. Categorias Principais
2.1 gTLDs (Generic Top-Level Domains)
Os gTLDs são genéricos, não atrelados a um país. Os históricos, criados nos anos 1980, são:
| TLD | Operador | Restrição original |
|---|---|---|
| .com | Verisign | Comercial (hoje aberto) |
| .org | Public Interest Registry (PIR) | Organizações sem fins lucrativos |
| .net | Verisign | Provedores de rede (hoje aberto) |
| .int | IANA | Organizações internacionais (tratados) |
| .edu | EDUCAUSE | Instituições de ensino superior (EUA) |
| .gov | US Cybersecurity & Infrastructure Security Agency | Governo federal dos EUA |
| .mil | US DoD | Militar dos EUA |
| .arpa | IANA | Infraestrutura (reverse DNS) |
Mais tarde, nos anos 2000, novos gTLDs foram introduzidos: .info, .biz, .name, .pro, .aero, .coop, .museum. Esses foram os "primeiros novos gTLDs".
2.2 ccTLDs (Country-Code Top-Level Domains)
Os ccTLDs correspondem a países ou territórios, baseados na norma ISO 3166-1 alfa-2. A IANA delega cada ccTLD a um operador local (geralmente uma entidade nacional, acadêmica ou governamental). Exemplos:
| ccTLD | País | Operador |
|---|---|---|
| .br | Brasil | Registro.br (NIC.br/NIC.br) |
| .us | Estados Unidos | Neustar |
| .uk | Reino Unido | Nominet |
| .fr | França | AFNIC |
| .de | Alemanha | DENIC |
| .jp | Japão | JPRS |
| .cn | China | CNNIC |
| .ru | Rússia | Coordination Center for TLD RU/SU |
| .ar | Argentina | NIC Argentina |
| .au | Austrália | auDA |
| .in | Índia | NIXI |
| .ca | Canadá | CIRA |
O Brasil tem a particularidade de organizar subdomínios sob o .br: .com.br, .org.br, .gov.br, .edu.br, .net.br, .mil.br. Cada um tem regras de elegibilidade próprias (por exemplo, .gov.br exige CNPJ governamental validado no gov.br).
Alguns ccTLDs viraram sucesso comercial global por serem curtos ou coincidirem com palavras:
.tv(Tuvalu) — usado por sites de TV e streaming..io(British Indian Ocean Territory) — adotado por startups de tecnologia (suspendido em 2025 por questões de soberania)..me(Montenegro) — usado para sites pessoais..co(Colômbia) — alternativa ao.com..ai(Anguilla) — febre de empresas de IA a partir de 2023.
2.3 New gTLDs (novo programa ICANN)
Em 2012 a ICANN abriu o New gTLD Program (RFC 9 not relevant — trata-se de processo ICANN, não IETF), permitindo que organizações aplicassem por TLDs próprios. A primeira rodada aprovou mais de 1.200 novos TLDs. Exemplos:
| TLD | Operador | Tipo |
|---|---|---|
| .app | Aberto | |
| .dev | Aberto | |
| .blog | Knock Knock WHOIS There | Aberto |
| .cloud | Aruba | Aberto |
| .bank | fTLD Registry Services | Restrito (instituições bancárias) |
| .pharmacy | NABP | Restrito (farmácias certificadas) |
| Marca (brand TLD) | ||
| .apple | Apple | Marca |
| .amazon | Amazon | Marca (após disputa com gov. sul-americanos) |
| .samsung | Samsung | Marca |
Brand TLDs exigem prova de registro de marca e custam dezenas de milhares de dólares por ano em taxas ICANN.
2.4 IDN (Internationalized Domain Names)
Historicamente, o DNS aceitava apenas caracteres ASCII (LDH: letters, digits, hyphen). Domínios com acentos ou alfabetos não latinos não funcionavam. A solução foi o IDN (Internationalized Domain Names) com o algoritmo Punycode (RFC 3492), que converte caracteres Unicode para uma string ASCII começada por xn--.
Exemplos:
| Domínio Visual | Punycode |
|---|---|
| saúde.com | xn--sade-2sa.com |
| köln.de | xn--kln-3qa.de |
| пример.рф | xn--e1afmkfd.example.xn--p1ai |
| 中国.中国 | xn--fiqs8s.xn--fiqs8s |
Cada TLD pode oferecer IDNs em sua zona. O Brasil permite xn-- em .com.br desde 2005 (ex: café.com.br). A ICANN também introduziu IDN ccTLDs: TLDs nacionais em scripts locais, como .рф (Rússia em cirílico), .中国 (China), .भारत (Índia em devanágari).
3. Governança: IANA, ICANN, Registries, Registrars
IANA (Internet Assigned Numbers Authority)
A IANA é a autoridade técnica que mantém o root zone file e delega TLDs. Hoje é operada pela PTI (Public Technical Identifiers), afiliada à ICANN, sob contrato com a comunidade multistakeholder.
ICANN (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers)
A ICANN coordena globalmente nomes e números. Define políticas para gTLDs via GNSO (Generic Names Supporting Organization) e para ccTLDs via ccNSO. Decisões são tomadas em reuniões públicas trimestrais.
Registries vs Registrars
- Registry (Registro): opera a zona autoritativa do TLD. Exemplo: Verisign para
.com, PIR para.org, NIC.br para.br. Há apenas um registry por TLD. - Registrar: revende domínios para o usuário final (Registro.br, GoDaddy, Namecheap, Hostinger). Há milhares de registrars credenciados pela ICANN.
A separação registry/registrar foi imposta pela ICANN em 1999 para evitar monopólio vertical (depois parcialmente relaxada para new gTLDs).
Accreditation
Para se tornar registrar, a empresa deve obter accreditation ICANN, demonstrar capacidade financeira (garantias de USD ~500 mil) e cumprir o 2013 RAA (Registrar Accreditation Agreement), que inclui verificação de WHOIS, validação de e-mail do registrante e regras de transferência.
4. Ciclo de Vida de um Domínio gTLD
[Disponível] --[registro]--> [Ativo]
| |
[auto-renew fail] [delete]
v v
[Auto-Renew Grace] [Redemption Grace]
(0-45d) (30d)
| |
v v
[Deletion / disponível] <---- [Pending Delete] (5d)
- Auto-Renew Grace Period (ARGP): 0-45 dias após renovação automática, cancelável com reembolso.
- Redemption Grace Period (RGP): 30 dias após deleção, recuperável com taxa extra.
- Pending Delete: 5 dias finais, irrecuperável.
Para ccTLDs, as regras variam. O .br não tem redemption — depois de expirado e passado o período de recuperação, o domínio é liberado.
5. DNSSEC em TLDs
A maioria dos TLDs operacionais hoje suporta DNSSEC. Ao registrar um domínio em .com.br, o Registro.br gera chaves DNSSEC e publica o registro DS na zona .br, criando a cadeia de confiança root → .br → domínio.
# Verificar se um TLD assina sua zona (DNSKEY)
dig br. DNSKEY +short
# Verificar cadeia de confiança
dig +dnssec www.exemplo.com.br A
6. Inspeção e Consultas Práticas
Listar todos os TLDs ativos
# Download do arquivo oficial IANA
wget https://www.iana.org/domains/root/db -O tld-list.html
# Ou em formato mais limpo via IANA zone file
dig axfr @a.root-servers.net . | grep -E ' IN NS'
Consultar operador e contatos de um TLD
A página https://www.iana.org/domains/root/db/
Verificar servidores autoritativos de um TLD
dig br. NS +short
# a.dns.br. b.dns.br. c.dns.br. d.dns.br. e.dns.br. f.dns.br.
dig com. NS +short
# a.gtld-servers.net. b.gtld-servers.net. ...
7. Tabela Resumo
| Categoria | Exemplos | Quantidade | Operador típico |
|---|---|---|---|
| gTLDs clássicos | .com, .org, .net, .int | ~8 | Verisign, PIR, IANA |
| gTLDs patrocinados | .edu, .gov, .mil, .aero | ~15 | Entidades específicas |
| ccTLDs | .br, .us, .uk, .jp | ~250 | Operadores nacionais |
| New gTLDs | .app, .dev, .blog, .google | ~1.200+ | Diversos operadores |
| IDN ccTLDs | .рф, .中国, .भारत | ~60 | Operadores nacionais |
| Brand TLDs | .apple, .google, .samsung | ~400 | Marcas |
8. Conclusão
Os TLDs são a espinha dorsal do sistema de nomes da internet. A divisão entre gTLDs (genéricos) e ccTLDs (geográficos) reflete tanto a história da rede quanto a necessidade moderna de identificação. A expansão dos new gTLDs e o suporte a IDN tornaram o sistema mais inclusivo, permitindo que organizações e pessoas de qualquer origem linguística encontrem um TLD adequado. Para engenheiros de redes, conhecer a hierarquia, os operadores e as ferramentas de inspeção é fundamental para diagnosticar problemas de resolução, configurar DNSSEC e entender questões de governança que afetam todo o ecossistema da internet.