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02 - TLD (Top-Level Domains)

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TLD (Top-Level Domains)

1. Definição e Papel na Hierarquia

Um Top-Level Domain (TLD) é o componente mais à direita de um nome de domínio, logo após o último ponto. Em www.exemplo.com.br, o TLD é .br. Em mail.google.com, o TLD é .com. Os TLDs são a primeira subdivisão abaixo da raiz no DNS, e cada um é delegado pela IANA a um operador responsável por manter os servidores autoritativos e o registro de domínios de segundo nível.

A lista oficial de TLDs é publicada e atualizada continuamente pela IANA em https://www.iana.org/domains/root/db. Em 2024, existem mais de 1.500 TLDs ativos, divididos em categorias funcionais distintas.

2. Categorias Principais

2.1 gTLDs (Generic Top-Level Domains)

Os gTLDs são genéricos, não atrelados a um país. Os históricos, criados nos anos 1980, são:

TLD Operador Restrição original
.com Verisign Comercial (hoje aberto)
.org Public Interest Registry (PIR) Organizações sem fins lucrativos
.net Verisign Provedores de rede (hoje aberto)
.int IANA Organizações internacionais (tratados)
.edu EDUCAUSE Instituições de ensino superior (EUA)
.gov US Cybersecurity & Infrastructure Security Agency Governo federal dos EUA
.mil US DoD Militar dos EUA
.arpa IANA Infraestrutura (reverse DNS)

Mais tarde, nos anos 2000, novos gTLDs foram introduzidos: .info, .biz, .name, .pro, .aero, .coop, .museum. Esses foram os "primeiros novos gTLDs".

2.2 ccTLDs (Country-Code Top-Level Domains)

Os ccTLDs correspondem a países ou territórios, baseados na norma ISO 3166-1 alfa-2. A IANA delega cada ccTLD a um operador local (geralmente uma entidade nacional, acadêmica ou governamental). Exemplos:

ccTLD País Operador
.br Brasil Registro.br (NIC.br/NIC.br)
.us Estados Unidos Neustar
.uk Reino Unido Nominet
.fr França AFNIC
.de Alemanha DENIC
.jp Japão JPRS
.cn China CNNIC
.ru Rússia Coordination Center for TLD RU/SU
.ar Argentina NIC Argentina
.au Austrália auDA
.in Índia NIXI
.ca Canadá CIRA

O Brasil tem a particularidade de organizar subdomínios sob o .br: .com.br, .org.br, .gov.br, .edu.br, .net.br, .mil.br. Cada um tem regras de elegibilidade próprias (por exemplo, .gov.br exige CNPJ governamental validado no gov.br).

Alguns ccTLDs viraram sucesso comercial global por serem curtos ou coincidirem com palavras:

  • .tv (Tuvalu) — usado por sites de TV e streaming.
  • .io (British Indian Ocean Territory) — adotado por startups de tecnologia (suspendido em 2025 por questões de soberania).
  • .me (Montenegro) — usado para sites pessoais.
  • .co (Colômbia) — alternativa ao .com.
  • .ai (Anguilla) — febre de empresas de IA a partir de 2023.

2.3 New gTLDs (novo programa ICANN)

Em 2012 a ICANN abriu o New gTLD Program (RFC 9 not relevant — trata-se de processo ICANN, não IETF), permitindo que organizações aplicassem por TLDs próprios. A primeira rodada aprovou mais de 1.200 novos TLDs. Exemplos:

TLD Operador Tipo
.app Google Aberto
.dev Google Aberto
.blog Knock Knock WHOIS There Aberto
.cloud Aruba Aberto
.bank fTLD Registry Services Restrito (instituições bancárias)
.pharmacy NABP Restrito (farmácias certificadas)
.google Google Marca (brand TLD)
.apple Apple Marca
.amazon Amazon Marca (após disputa com gov. sul-americanos)
.samsung Samsung Marca

Brand TLDs exigem prova de registro de marca e custam dezenas de milhares de dólares por ano em taxas ICANN.

2.4 IDN (Internationalized Domain Names)

Historicamente, o DNS aceitava apenas caracteres ASCII (LDH: letters, digits, hyphen). Domínios com acentos ou alfabetos não latinos não funcionavam. A solução foi o IDN (Internationalized Domain Names) com o algoritmo Punycode (RFC 3492), que converte caracteres Unicode para uma string ASCII começada por xn--.

Exemplos:

Domínio Visual Punycode
saúde.com xn--sade-2sa.com
köln.de xn--kln-3qa.de
пример.рф xn--e1afmkfd.example.xn--p1ai
中国.中国 xn--fiqs8s.xn--fiqs8s

Cada TLD pode oferecer IDNs em sua zona. O Brasil permite xn-- em .com.br desde 2005 (ex: café.com.br). A ICANN também introduziu IDN ccTLDs: TLDs nacionais em scripts locais, como .рф (Rússia em cirílico), .中国 (China), .भारत (Índia em devanágari).

3. Governança: IANA, ICANN, Registries, Registrars

IANA (Internet Assigned Numbers Authority)

A IANA é a autoridade técnica que mantém o root zone file e delega TLDs. Hoje é operada pela PTI (Public Technical Identifiers), afiliada à ICANN, sob contrato com a comunidade multistakeholder.

ICANN (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers)

A ICANN coordena globalmente nomes e números. Define políticas para gTLDs via GNSO (Generic Names Supporting Organization) e para ccTLDs via ccNSO. Decisões são tomadas em reuniões públicas trimestrais.

Registries vs Registrars

  • Registry (Registro): opera a zona autoritativa do TLD. Exemplo: Verisign para .com, PIR para .org, NIC.br para .br. Há apenas um registry por TLD.
  • Registrar: revende domínios para o usuário final (Registro.br, GoDaddy, Namecheap, Hostinger). Há milhares de registrars credenciados pela ICANN.

A separação registry/registrar foi imposta pela ICANN em 1999 para evitar monopólio vertical (depois parcialmente relaxada para new gTLDs).

Accreditation

Para se tornar registrar, a empresa deve obter accreditation ICANN, demonstrar capacidade financeira (garantias de USD ~500 mil) e cumprir o 2013 RAA (Registrar Accreditation Agreement), que inclui verificação de WHOIS, validação de e-mail do registrante e regras de transferência.

4. Ciclo de Vida de um Domínio gTLD

[Disponível] --[registro]--> [Ativo]
                              |  |
                       [auto-renew fail]  [delete]
                              v           v
                       [Auto-Renew Grace] [Redemption Grace]
                          (0-45d)            (30d)
                              |                |
                              v                v
                       [Deletion / disponível] <---- [Pending Delete] (5d)
  • Auto-Renew Grace Period (ARGP): 0-45 dias após renovação automática, cancelável com reembolso.
  • Redemption Grace Period (RGP): 30 dias após deleção, recuperável com taxa extra.
  • Pending Delete: 5 dias finais, irrecuperável.

Para ccTLDs, as regras variam. O .br não tem redemption — depois de expirado e passado o período de recuperação, o domínio é liberado.

5. DNSSEC em TLDs

A maioria dos TLDs operacionais hoje suporta DNSSEC. Ao registrar um domínio em .com.br, o Registro.br gera chaves DNSSEC e publica o registro DS na zona .br, criando a cadeia de confiança root → .br → domínio.

# Verificar se um TLD assina sua zona (DNSKEY)
dig br. DNSKEY +short

# Verificar cadeia de confiança
dig +dnssec www.exemplo.com.br A

6. Inspeção e Consultas Práticas

Listar todos os TLDs ativos

# Download do arquivo oficial IANA
wget https://www.iana.org/domains/root/db -O tld-list.html
# Ou em formato mais limpo via IANA zone file
dig axfr @a.root-servers.net . | grep -E ' IN NS'

Consultar operador e contatos de um TLD

A página https://www.iana.org/domains/root/db/.html traz detalhes: operador, contactos administrativos, servidores autoritativos, status (ativo/retired/delegated).

Verificar servidores autoritativos de um TLD

dig br. NS +short
# a.dns.br. b.dns.br. c.dns.br. d.dns.br. e.dns.br. f.dns.br.

dig com. NS +short
# a.gtld-servers.net. b.gtld-servers.net. ...

7. Tabela Resumo

Categoria Exemplos Quantidade Operador típico
gTLDs clássicos .com, .org, .net, .int ~8 Verisign, PIR, IANA
gTLDs patrocinados .edu, .gov, .mil, .aero ~15 Entidades específicas
ccTLDs .br, .us, .uk, .jp ~250 Operadores nacionais
New gTLDs .app, .dev, .blog, .google ~1.200+ Diversos operadores
IDN ccTLDs .рф, .中国, .भारत ~60 Operadores nacionais
Brand TLDs .apple, .google, .samsung ~400 Marcas

8. Conclusão

Os TLDs são a espinha dorsal do sistema de nomes da internet. A divisão entre gTLDs (genéricos) e ccTLDs (geográficos) reflete tanto a história da rede quanto a necessidade moderna de identificação. A expansão dos new gTLDs e o suporte a IDN tornaram o sistema mais inclusivo, permitindo que organizações e pessoas de qualquer origem linguística encontrem um TLD adequado. Para engenheiros de redes, conhecer a hierarquia, os operadores e as ferramentas de inspeção é fundamental para diagnosticar problemas de resolução, configurar DNSSEC e entender questões de governança que afetam todo o ecossistema da internet.