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07 - Avaliação, Proveniência e Histórico das Fontes

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Avaliação, Proveniência e Histórico das Fontes

Nota 07 do capítulo 02 (Fontes de Dados e Coleta), fechando o capítulo com o controle de qualidade da coleta.
Apresenta a escala Admiralty A1 a F6, os metadados de proveniência, o histórico de acurácia e a pontuação contínua de fontes.
Dialoga com todas as notas anteriores do capítulo e sustenta os capítulos 03 (Indicadores), 05 (Análise e Produção) e 11 (Indicadores e Métricas).

1. Contexto e Posicionamento na Biblioteca

Toda a coleta do capítulo converge para uma pergunta de qualidade: quanto vale, hoje, o que cada fonte entrega? A nota 01 coletou em fontes abertas, a 02 em fontes pagas e oficiais, a 03 em comunidades, a 04 na telemetria interna, a 05 em iscas e a 06 no ecossistema criminoso. Sem um sistema único de avaliação, as seis notas produzem material de pesos incomparáveis, e o consumidor final, o analista de detecção, o hunter e a gestão, não consegue decidir com base em que confiar.

Esta nota define esse sistema em três camadas complementares. A avaliação estática responde pela procedência e pela reputação da fonte no momento da adesão, com a escala Admiralty como vocabulário. A proveniência responde por cada item individual: quem viu, onde, quando e por que caminho o dado chegou. O histórico responde pelo desempenho acumulado, transformando acertos e erros em pontuação contínua que orienta coleta, detecção e orçamento. As três camadas juntas são o que permite que a biblioteca fale de confiança calibrada em vez de confiança decorativa.

2. Escala Admiralty A1 a F6

A escala Admiralty vem da inteligência militar do século XX e sobrevive até hoje porque resolve um problema estrutural com dois eixos separados: a confiabilidade da fonte e a credibilidade da informação são julgamentos distintos, e colapsá-los em um só valor destrói a informação. Uma fonte completamente confiável pode relatar uma improbabilidade; uma fonte não confiável pode acertar por acaso. A escala codifica os dois eixos em um par letra-número, de A1 a F6, que cabe em um campo de metadado e sobrevive a migração entre sistemas.

Código Fonte: confiabilidade Informação: credibilidade
A Completamente confiável 1: Confirmada por outras fontes
B Geralmente confiável 2: Provavelmente verdadeira
C Bastante confiável 3: Possivelmente verdadeira
D Geralmente não confiável 4: Duvidosa
E Não confiável 5: Improbável
F Confiabilidade não julgável 6: Credibilidade não julgável
Par Leitura operacional Exemplo típico
A1 Fonte de ponta, informação confirmada Telemetria própria confirma IOC de advisory oficial
B2 Fonte sólida, informação provável Feed comercial respeitado sem confirmação interna
C3 Fonte razoável, informação possível Relato de pesquisador em publicação própria
D4 Fonte irregular, informação duvidosa Rumor de fórum com detalhes inconsistentes
F6 Novo ou sem julgamento Fonte recém-adicionada, sem histórico
E5 Combinação improvável, raro Fonte má persistente com informação contraditória

O uso prático da escala tem três regras que evitam os abusos mais comuns. Primeira: o julgamento é da fonte, não do item individual, e o item herda o código da fonte até que a organização tenha evidência para julgar de forma diferente. Segunda: o par inicial mais comum é F6, e isso é correto, porque fonte nova não tem histórico; a escala começa a valer exatamente quando o histórico começa a existir. Terceira: a escala alimenta decisão, não substitui análise, e nenhum fluxo deve descartar material automaticamente por código baixo, porque o material C4 de hoje pode ser a única antecipação disponível de uma campanha.

3. Proveniência de Cada Item

Proveniência é a genealogia do dado: quem observou, onde, quando, por que caminho e com que transformação. A pergunta operacional que a proveniência responde é de auditoria reversa: dado um item no TIP, em duas horas o analista consegue reconstruir a linha completa entre o evento original e o uso atual? Quando a resposta é não, a organização tem dado órfão, e dado órfão é aquele que ninguém confia, ninguém atualiza e ninguém remove, acumulando até virar ruído permanente.

O conjunto mínimo de metadados de proveniência cabe em uma lista curta e deve ser exigido de toda ingestão, sem exceção. A lista abaixo é o contrato de entrada do pipeline, e item que chega sem esses campos entra marcado como incompleto e entra na fila de enriquecimento, nunca direto na detecção.

  • Identidade da fonte: nome do feed, da comunidade ou do sensor, com identificador estável no inventário de fontes.
  • Momento de cada etapa: quando o evento ocorreu, quando a fonte o observou, quando a organização o coletou.
  • Caminho de chegada: direto, repassado por comunidade, agregado de terceiro, com registro de cada salto conhecido.
  • Transformação aplicada: normalização, tradução, agregação ou inferência, cada uma com responsável e versão do processo.
  • Marcação de divulgação: TLP de origem e distribuição permitida herdada no caminho.
  • Julgamento de qualidade: par Admiralty da fonte no momento da coleta e alterações posteriores com data.

A cadeia de proveniência fica mais clara com um exemplo de caminho longo, que é justamente o caso que exige os metadados. Um indicador observado por parceiro de comunidade, repassado por um ISAC, enriquecido pela organização e usado em detecção tem três saltos e uma transformação, e cada elo adiciona um ponto em que a informação pode ter sido alterada ou descontextualizada. O registro abaixo mostra a mesma informação em formato de trilha textual, alternativa aceitável quando o sistema não suporta o JSON completo.

Trilha de proveniência de um indicador recebido por comunidade
 1. Observado por membro do ISAC em telemetria própria (2025-03-01T09:20Z)
 2. Publicado no MISP do ISAC em TLP:AMBER, admiralty C2 (2025-03-01T11:05Z)
 3. Sincronizado por pull para o MISP interno (2025-03-01T11:31Z)
 4. Enriquecido com passiveDNS interno, tag nova adicionada (2025-03-01T15:02Z)
 5. Consumido por regra de detecção no SIEM (2025-03-02T08:00Z)
Nota: o código herdado permanece C2; o enriquecimento interno não muda a fonte
{
  "valor": "portal-cobranca-falsa.example",
  "tipo": "domain-name",
  "origem": {"fonte": "URLhaus", "id_interno": "SRC-014", "admiralty": "B2"},
  "tempos": {"observado": "2025-03-02T14:00:00Z", "coletado": "2025-03-02T14:12:31Z"},
  "caminho": ["URLhaus", "ingestao-direta"],
  "transformacoes": ["normalizacao-unicode", "tag-por-regex"],
  "tlp": "TLP:GREEN",
  "status": {"estado": "vigente", "valido_ate": "2025-04-02"}
}

4. Histórico de Acurácia e Pontuação Contínua

O histórico transforma a avaliação estática em curva viva. Para cada fonte, o programa acompanha métricas de desempenho sobre a própria produção: quantos itens acionaram, quantos foram falsos positivos, quantos corroboraram com telemetria interna, quantos ficaram obsoletos sem uso e em quanto tempo. O método de cálculo mais robusto é janela móvel, tipicamente noventa dias, porque fontes mudam: feed comercial que troca de provedor de dados degrada, comunidade que perde curadoria degrada, e a pontuação de janela móvel captura a degradação antes que ela contamine o pipeline.

O desenho da pontuação contínua mais simples que funciona combina quatro componentes com pesos explícitos e documentados. Cada componente tem dado objetivo por trás, e o número final é comparável entre fontes e ao longo do tempo, o que permite ranking honesto e decisões de corte.

Componente O que mede Sinal de degradação
Precisão Proporção de itens confirmados ou corroborados Falsos positivos em alta
Unicidade Fração de itens que nenhuma outra fonte ativa entrega Fonte vira eco de outra
Antecipação Lead time entre o alerta da fonte e a primeira observação relevante Lead time caindo a zero ou negativo
Vivacidade Taxa de itens ainda úteis no fim da janela Volume alto, acionamento quase zero
-- Pontuação mensal por fonte: precisão sobre itens avaliados
SELECT f.nome AS fonte,
       COUNT(*) AS itens_avaliados,
       SUM(CASE WHEN i.resultado = 'confirmado' THEN 1 ELSE 0 END) AS confirmados,
       SUM(CASE WHEN i.resultado = 'falso_positivo' THEN 1 ELSE 0 END) AS falsos,
       ROUND(100.0 * SUM(CASE WHEN i.resultado = 'confirmado' THEN 1 ELSE 0 END) / NULLIF(COUNT(*), 0), 1) AS precisao_pct
FROM itens_inteligencia i
JOIN fontes f ON f.id = i.fonte_id
WHERE i.avaliado_em >= CURRENT_DATE - INTERVAL '90 days'
GROUP BY f.nome
ORDER BY precisao_pct DESC;

A pontuação alimenta decisões com limiares acordados com o SOC, e não com números tirados do contexto. Fonte abaixo do limiar de precisão por dois ciclos seguidos sai da automação e passa a exigir revisão humana; fonte com unicidade próxima de zero é candidata a cancelamento na contabilidade da nota 02; fonte nova entra com Admiralty F6 e é reavaliada após a primeira janela. O registro de mudança de código, com data e motivo, é parte do histórico, porque a curva da fonte é em si material de inteligência sobre a saúde do ecossistema de coleta.

O decaimento natural dos indicadores entra na mesma contabilidade do histórico, porque afeta a leitura de precisão. IOC de infraestrutura de campanha curta fica inútil em dias, e fonte especializada em material volátil precisa ser avaliada por antecipação, e não por permanência; já material de infraestrutura duradoura, como registrador e certificado, sustenta avaliação mais longa. Sem separar a expectativa de vida por tipo de item, a pontuação pune fontes que coletam o que mais interessa, que é justamente o material de curta duração com maior valor de antecipação, e essa é uma das distorções mais comuns em programas que só medem taxa de acerto bruta.

5. Rotulagem e Operação no Dia a Dia

A operação madura de avaliação é quase invisível, porque vive em campos e automações, não em planilhas. No TIP, cada item nasce com proveniência completa e código Admiralty herdado; no SIEM, detecções consomem material por faixa de confiança, com automação restrita a faixas altas e revisão humana nas demais; nos relatórios, cada afirmação carrega a fonte e o código que a sustenta, o que permite ao leitor sênior discordar com informação, e não com intuição. A tabela abaixo resume como as faixas de confiança se traduzem em tratamento no pipeline.

Faixa Admiralty Tratamento no pipeline Uso recomendado
A1 a A2 Automação plena, bloqueio e alerta permitidos Detecção e resposta diretas
B1 a B3 Alerta com enriquecimento automático Detecção com revisão leve
C1 a C4 Ingestão marcada, sem bloqueio automático Vigilância, hunting, enriquecimento analítico
D e E Apenas registro, com deduplicação Contexto secundário e correlação
F6 Fila de avaliação com prazo Aguardando primeiro ciclo de histórico

Três hábitos de rotina sustentam o sistema sem burocracia. A revisão trimestral de fontes percorre o ranking de pontuação, confirma limiares e registra decisões de manter, rebaixar ou encerrar. O julgamento Admiralty é atualizado por evento, quando a telemetria confirma ou refuta material importante, e a atualização é do analista responsável pelo caso, com um campo editado. E o reporte mensal inclui o top e o bottom do ranking, porque a discussão sobre fonte ruim é tão produtiva quanto sobre fonte boa.

O registro canônico da fonte fecha a operação: um documento curto por fonte, versionado, que concentra tudo o que as seções anteriores calculam. O modelo abaixo é o mínimo profissional, e a ausência de qualquer campo é sinal de fonte não governada, não de simplicidade.

id_fonte: SRC-021
nome: "Feed técnico X"
tipo: feed_tecnico
categoria: comercial
contrato: {renovacao: 2025-09, custo_anual: "R$ xx.000", clausulas: [nao_redistribuicao, uso_interno]}
admiralty: {inicial: F6, atual: B2, ultima_revisao: 2025-06-30}
metricas_90d: {precisao_pct: 94.2, unicidade_pct: 17.0, acionamentos: 46, falsos: 3}
pipeline: {ingestao: taxa_api_a_cada_30min, destino: TIP, tlp_padrao: "TLP:GREEN"}
decisao: {status: ativo, automacao: permitida_faixa_B, revisao_em: 2025-09-30}

6. Erros Comuns e Pontos de Atenção

  • Colapsar confiabilidade da fonte e credibilidade da informação em um único número; efeito: perda do par de julgamentos que a escala separa; correção: manter o par letra-número e registrar os dois eixos.
  • Atribuir código alto a fonte nova por boa vontade; efeito: material sem histórico entra em automação; correção: fonte nova é F6 até o primeiro ciclo completo.
  • Proveniência opcional na ingestão; efeito: dado órfão acumulando no TIP; correção: campos de proveniência obrigatórios, item incompleto não entra em detecção.
  • Pontuação sem limiar nem decisão; efeito: número decorativo que não muda nada; correção: cada faixa com tratamento definido no pipeline e dono de decisão.
  • Calibrar por volume de produção da fonte; efeito: fontes ruidosas parecem valiosas por produzirem muito; correção: pontuar por qualidade por item e por antecipação.
  • Nunca revisar o código herdado; efeito: julgamento inicial congelado por anos; correção: atualização por evento, com data e responsável.
  • Esconder do SOC a diferença entre faixas; efeito: analista trata D4 e A1 com o mesmo peso; correção: faixas visíveis na triagem e no alerta, com regra de tratamento no mesmo lugar.

7. Integração com o Restante da Biblioteca

O sistema desta nota é o collar de qualidade que as demais notas do capítulo já citam: cada fonte declarada nas notas 01 a 06 entra no inventário, recebe F6 inicial, ganha histórico e passa a ter código vivo. O capítulo 03 consome o resultado ao rotular indicadores com confiança e validade, o capítulo 05 usa o par Admiralty como parte do vocabulário de avaliação na produção analítica, e o capítulo 11 mede o programa com as métricas de precisão e de acionamento que a pontuação contínua produz. Nos controles do capítulo 15, o PLT.4 de gestão de fontes é o espelho operacional desta nota na implantação.

A marca deixada para o próximo capítulo é o desfecho natural do ciclo de coleta: o capítulo 03 recebe material avaliado, com origem confiável ou ao menos conhecida, validade declarada e proveniência completa, e transforma observável em indicador. A partir desse ponto, o indicador herda o código de confiança por onde circular, e a qualidade da coleta, ou sua ausência, acompanha cada detecção, cada hunt e cada relatório que a biblioteca produz. Fonte avaliada não é burocracia de metadado; é a diferença entre inteligência calibrada e lista de itens sem dono.