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06 - Domínios, Subdomínios e Agrupamento de Ativos

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Domínios, Subdomínios e Agrupamento de Ativos

Nota da seção "06 - Análise de Infraestrutura" do capítulo 03 (Indicadores de Ameaças: IOC, IOA, IOB, IOE).
Trata o domínio como objeto de inteligência: registro, registros DNS, enumeração passiva e ativa de subdomínios, wildcards, typosquats e homoglifos, e o agrupamento de ativos por padrão de nomenclatura.
Dialoga com as notas de Certificados TLS, de Hosting e CDN e de Pivoting desta seção, e com a Pirâmide de Dor do capítulo 04.

1. Contexto e Posicionamento na Biblioteca

O domínio é a unidade de controle do adversário. IP é descartável, certificado é barato, mas o domínio é registrado, pago e mantido, e é por ele que a vítima é levada à infraestrutura. Por isso, a enumeração e o agrupamento de domínios e subdomínios sustentam os dois produtos centrais da análise de infraestrutura: a descoberta da superfície do adversário e a superfície própria que precisa ser defendida. A mesma técnica que encontra subdomínios esquecidos de staging no certificado da organização encontra o subdomínio de C2 do operador.

Esta nota percorre o ciclo completo do trabalho com nomes. Começa pelo registro e pelos registros DNS como fonte de dados, passa pela enumeração passiva e ativa de subdomínios, trata das armadilhas de wildcards, cobre typosquats e homoglifos como classe própria de indicadores e termina no agrupamento por padrões de nomenclatura, que transforma listas soltas em clusters de infraestrutura. Os pivôs derivados aqui são formalizados na nota de Pivoting e Correlação de Infraestrutura.

2. O Domínio como Objeto de Inteligência

Todo domínio carrega metadados de registro públicos: registrante, organização, contatos, registrar, nameservers, datas de criação, atualização e expiração. O protocolo de acesso moderno é o RDAP, que substituiu gradualmente o WHOIS legado com respostas estruturadas em JSON. A privacidade de registro, oferecida por padrão em muitos registradores, esconde o nome do comprador, mas não esconde o padrão: a combinação de registrar, país do nameserver, hora exata da criação e forma de pagamento em revenda permanece discriminativa, e o histórico de whois, mantido por serviços comerciais, preserva registros anteriores à ativação da privacidade.

Os registros DNS, por sua vez, funcionam como declarações públicas de propósito. A tabela abaixo resume o que cada tipo de registro revela para o analista de infraestrutura.

Registro Conteúdo Uso analítico típico
A e AAAA Endereço IPv4 e IPv6 do nome Pivô de resolução, histórico por DNS passivo
CNAME Apelido para outro nome Descobrir origem atrás de CDN, detectar subdomínio órfão com risco de takeover
MX Servidores de e-mail do domínio Identificar provedor de e-mail, pivô por entrada SPF comum
NS Servidores de nomes autoritativos Agrupar domínios pela mesma infraestrutura de DNS
TXT Textos livres, SPF, DKIM, DMARC, verificação de serviços Revelar provedores de nuvem, marketing e integrações em uso
SOA Contato e parâmetros da zona Identificar e-mail de contato administrativo, TTL de zona

A leitura combinada desses registros costuma descrever a operação melhor que qualquer página institucional. Um TXT de verificação do provedor de e-mail marketing, um CNAME para plataforma de e-commerce e um MX de suíte de produtividade desenham a pilha da organização, e o adversário lê exatamente os mesmos registros para planejar phishing e tomada de conta. O analista defensivo aplica a mesma leitura para mapear a própria superfície, conectando esta nota ao EASM do capítulo 04.

# Registro estruturado via RDAP e leitura rapida da zona
curl -s "https://rdap.registro.br/domain/exemplo-alvo.com.br" | jq -r '.events[] | [.eventAction, .eventDate] | @tsv'
dig +short exemplo-alvo.com.br A; dig +short exemplo-alvo.com.br MX; dig +short exemplo-alvo.com.br TXT

3. Enumeração Passiva de Subdomínios

A enumeração passiva coleta nomes que já foram observados por terceiros, sem enviar pacote algum ao alvo. As fontes principais são quatro e se complementam em cobertura. Os logs de Certificate Transparency, detalhados na nota de Certificados TLS, registram todo nome coberto por certificado público. O DNS passivo, mantido por provedores de enriquecimento, guarda anos de resoluções observadas em resolução real. Os índices de pesquisa e APIs OSINT, como VirusTotal, SecurityTrails, Shodan e Censys, acumulam respostas de DNS e certificados vistos por varredura global. Por fim, os datasets públicos de dados vazados de zonefiles e repositórios de código revelam nomes citados em arquivos de configuração.

# Enumeracao passiva com amass, agregando CT, DNS passivo e APIs configuradas
amass enum -passive -d exemplo-alvo.com.br -o subdominios_passivo.txt

# Alternativa leve com subfinder, projetado para pipeline
subfinder -d exemplo-alvo.com.br -silent | sort -u > subdominios_subfinder.txt

# Cruzamento rapido de fontes para priorizar nomes novos
comm -12 <(sort -u subdominios_passivo.txt) <(sort -u subdominios_subfinder.txt)

A prática madura trata a enumeração passiva como monitoramento contínuo, e não como tarefa pontual. Uma execução semanal, com comparação contra o snapshot anterior, produz um delta de nomes novos, e o delta é onde mora a inteligência: subdomínio novo não catalogado no inventário interno é candidato a take over, e subdomínio novo em infraestrutura de provedor estrangeiro é candidato a phishing. Esse delta alimenta diretamente o controle INS.4 da seção 15 e as hipóteses do TH.6.

4. Enumeração Ativa e Suas Cautelas

A enumeração ativa provoca o alvo: brute force de nomes contra servidores DNS autoritativos, varredura de resolução de listas gigantes e sondagem de serviços HTTP em cada nome resolvido. Ferramentas como o gobuster em modo DNS e o dnsrecon executam essa sondagem com listas de nomes comuns, e a resolução ativa confirma o que as fontes passivas apenas sugeriram. O ganho real é descobrir nomes nunca publicados em certificado, especialmente quando a organização usa wildcards que escondem a enumeração por CT.

As cautelas são obrigatórias e de três tipos. Primeiro, autorização: varredura ativa de terceiros sem permissão pode violar termos de uso e leis locais, e a biblioteca trata a diferença entre alvo próprio, alvo de cliente com contrato e alvo de investigação de ameaça, caso em que a ação é só leitura de fontes públicas. Segundo, ritmo: consultas em alta taxa contra os nameservers do alvo deixam rastro inconfundível nos logs do operador e podem derrubar DNS frágil. Terceiro, proporção: brute force de nomes com dicionário curto cobre a maior parte do valor a custo mínimo, e o retorno marginal de listas de milhões de nomes não justifica o ruído na maioria das investigações.

5. Wildcards e Falsos Positivos

Um registro curinga, como *.exemplo-alvo.com.br, faz qualquer nome consultado resolver, e essa propriedade contamina toda a enumeração: o brute force devolve milhares de nomes inexistentes que resolvem para o mesmo IP. O teste de wildcard é simples e obrigatório antes de qualquer enumeração ativa, consistindo em consultar um nome aleatório improvável. Se o nome aleatório resolve, a zona tem wildcard, e a enumeração por resolução perde valor, restando a comparação de conteúdo e de certificado por nome para separar hosts reais.

# Teste de wildcard com um nome improvavel
dig +short xk7qz-nao-existe.exemplo-alvo.com.br
# Se retornar endereco, a zona tem wildcard; registre o IP de resposta padrao

# Com wildcard ativo, diferencie hosts reais por resposta HTTP
for host in app intranet xk7qz-nao-existe; do
  code=$(curl -s -o /dev/null -w "%{http_code}" -m 8 "https://$host.exemplo-alvo.com.br")
  echo "$host $code"
done

O mesmo cuidado vale no sentido inverso: a ausência de resposta em um momento não prova inexistência, porque o DNS é distribuído e o cache desigual. O DNS passivo ajuda ao guardar o histórico, e é nele que aparecem os subdomínios que existiram no passado e que hoje apontam para provedores com subdomínio disponível para registro, o cenário clássico de takeover. A triagem de risco de takeover compara o CNAME atual com o catálogo de serviços que oferecem subdomínio, como plataformas de hospedagem estática, help desks e serviços de CDN, e verifica se o destino ainda está disponível para alocação.

6. Typosquats, Homoglifos e Domínios de Ameaça Registrados

O typosquatting registra nomes que parecem o domínio da marca para capturar erros de digitação e confundir vítimas. As permutações são sistematizáveis, e a ferramenta dnstwist as gera com algoritmos consagrados, marcando quais estão registrados e resolvendo. A tabela abaixo resume as classes de permutação que todo analista deve reconhecer à primeira vista.

Classe de permutação Exemplo para exemplo.com.br Risco típico
Omissão exmplo.com.br Erro de digitação da vítima em phishing
Transposição exepmlo.com.br Erro de digitação em teclado rápido
Inserção exemploo.com.br Captura de erro de dupla tecla
Substituição de tecla próxima exwmple.com.br Erro de digitação em layout físico
Troca de vogal exemple.com.br Confusão de grafia entre idiomas
Hifenização e separação ex-emplo.com.br Leitura enganosa em listas impressas
Bitsquatting examplo com bit invertido no rótulo Erro de hardware raro, usado de forma oportunista
Homoglifo IDN xn--exampl-9ua.com.br Imitação visual perfeita com caracteres Unicode

O homoglifo merece atenção especial porque substitui letras por caracteres visualmente idênticos de outros alfabetos, como o a cirílico, e o nome registrado aparece no WHOIS em formato punycode com o prefixo xn--. Navegadores modernos exibem o punycode justamente para denunciar essa imitação, e a leitura do SAN do certificado, descrita na nota de Certificados TLS, entrega a mesma denúncia. Complementarmente, o monitoramento de marcas acompanha TLDs de risco, como os que oferecem registro gratuito ou imediato, e domínios recém-registrados contendo a marca, que costumam ser emitidos com certificado gratuito no mesmo dia.

# Gerar e checar permutacoes registradas para o dominio da marca
dnstwist --registered --format csv exemplo.com.br > permutacoes.csv

# Verificar punycode suspeito e resolver
dig +short "xn--exampl-9ua.com.br" A
whois "xn--exampl-9ua.com.br" | grep -iE "creation|registrar"

O monitoramento precisa ser configurável, e não improvisado a cada campanha. O fragmento abaixo declara, em formato simples, o conjunto de regras que um monitor de marca executa diariamente contra CT, DNS passivo e feeds de domínios recém-registrados, com severidade por classe de permutação.

monitor_marca:
  marca: exemplo
  tld_legitimo: [com.br, com]
  classes_monitoradas:
    - omitido
    - transposto
    - homoglifo
    - marca-tld-novo
  severidade:
    homoglifo: critica
    marca-tld-novo: alta
    omitido: media
  acoes:
    - registrar evidencia com data e resolução
    - notificar resposta a incidentes
    - abrir pedido de derrubada no registrar

7. Agrupamento por Padrões de Nomenclatura

A enumeração produz uma lista; a inteligência exige estrutura. O agrupamento por padrões de nomenclatura aplica o princípio de que operadores reusam convenções, e as convenções são identificáveis. No lado defensivo, as convenções corporativas, como vpn01, owa, rh-interno, criam um vocabulário previsível que a enumeração explora e que o inventário precisa validar. No lado ofensivo, o operador de infraestrutura também repete hábitos: o mesmo sufixo em domínios de campanhas distintas, o mesmo esquema de subdomínios cdn, api, static e docs sobre domínios descartáveis, ou o mesmo template visual por trás de nomes diferentes.

O agrupamento em prática segue três passos. Primeiro, extrair os rótulos dos nomes e normalizar, removendo TLD e marca. Segundo, agrupar por semelhança de padrão, com atenção a sufixos numéricos, separadores e palavras de função. Terceiro, validar cada grupo com um pivô independente, como certificado comum, nameserver comum ou template HTTP comum, para que o agrupamento não vire coincidência elevada a hipótese. O resultado é o cluster de infraestrutura, com nomes, IPs, certificados e confiança, que alimenta o grafo descrito na nota de Pivoting.

Cluster hipotetico observado em campanha de phishing bancario:
  padrao de dominio:   [palavra]-segura-[tld alternativo]
  nomes:  login-segura.top, app-segura.top, conta-segura.top
  pivots de validacao:
    certificado: mesmo endereço de chave publica nos tres dominios
    nameserver:  ns1.hosting-descartavel.io comum aos tres
    template:    hash de favicon identico e cabecalho Server igual
  confianca do cluster: alta, tres pivots independentes coincidentes

8. Exemplo Prático de Análise

A organização recebe denúncia de phishing em conta-alterada.top e precisa entender o alcance. A enumeração passiva do domínio malicioso, via CT e DNS passivo, revela os subdomínios login e app e o histórico de três IPs distintos em cinco dias, padrão de rotação em nuvem barata. O certificado coletado por SNI em cada IP apresenta o mesmo endereço de chave pública em dois domínios irmãos, e o whois dos três domínios mostra criação em janelas de minutos, mesmo registrar e privacidade ativada, com o nameserver apontando para provedor repetido em outros casos da base interna.

O produto final é o cluster descrito na seção anterior, entregue com três indicadores bloqueáveis, os três domínios, um indicador de médio prazo, o par nameserver e provedor de nuvem, e um indicador de longo prazo, o template de favicon e certificado. A contagem final traduz o valor: a denúncia de um domínio virou três domínios bloqueados no dia, uma regra de monitoramento por nameserver e uma hipótese de hunting por template no proxy.

9. Erros Comuns e Pontos de Atenção

  • Confundir resolução passada com atual: o DNS passivo guarda resoluções antigas, e pivô por IP requer janela de tempo; dois domínios que compartilharam IP em 2021 não formam relação em 2025.
  • Enumerar sem checar wildcard: a zona com curinga transforma brute force em lista infinita de nomes fantasma; teste o nome aleatório antes de confiar em qualquer lista de resolução.
  • Tratar o delta como ruído: a comparação semanal contra snapshot anterior é o produto mais valioso da enumeração; executar a varredura e ignorar o que mudou desperdiça a fonte.
  • Subestimar o punycode: nomes com prefixo xn-- passam despercebidos em relatórios e devem ser expandidos e traduzidos sempre, porque o homoglifo é projetado para enganar a olho nu.
  • Agrupar sem validar: semelhança de nomenclatura é hipótese, e o cluster só vira evidência com pivô independente, como certificado, nameserver ou template comum.
  • Ignorar o IPv6: muita enumeração cobre só A, e campanhas mantêm registros AAAA paralelos; o IPv6 é fonte de endereços próprios, com rotação e histórico diferentes.
  • Abrir mão do histórico de whois: a privacidade atual esconde o registro atual, não o passado; serviços de histórico revelam o operador que ativou privacidade depois do primeiro evento.

10. Integração com o Restante da Biblioteca

Os nomes enumerados e agrupados aqui são a entrada da nota de Pivoting e Correlação de Infraestrutura, que formaliza os pivôs por nameserver, por certificado e por padrão de nomenclatura, e da nota de Certificados TLS, que fornece a fonte CT de enumeração. No capítulo 04, a Pirâmide de Dor classifica o domínio como nível de dor moderada, e o EASM recebe desta nota a mecânica de delta semanal para descobrir a própria superfície. Na seção 15, o controle INS.3 executa a enumeração defensiva e o INS.4 monitora as mudanças, e as hipóteses do TH.6 consomem os clusters como matéria-prima de caça.

O fechamento desta nota entrega a unidade básica do trabalho com infraestrutura: o nome normalizado, com registro, histórico e vizinhança, pronto para entrar no grafo. A nota seguinte assume essa unidade e responde à pergunta de como amarrar unidades dispersas em um caso, transformando listas em cadeia de evidência com confiança explícita.