02 - Hunting de Identidade e Autenticação
video: https://youtu.be/... no frontmatter da nota.Hunting de Identidade e Autenticação
Nota 02 do capítulo 26, que leva o hunting para o plano de controle das identidades, onde a maior parte das intrusões modernas começa.
O foco são os sinais de caça em autenticação, as fontes de telemetria de IdP e as consultas KQL que transformam hipóteses em buscas.
Dialoga com a nota 01 deste capítulo, com a nota 10 do capítulo 08 e com as notas de hipóteses do capítulo 06.
1. Contexto e Posicionamento na Biblioteca
A identidade assumiu o lugar que a rede ocupava na década anterior como principal plano de controle da intrusão: o atacante que obtém uma sessão válida dispensa exploração de vulnerabilidade, evita a EDR e opera com as ferramentas nativas do ambiente. O hunting de identidade é, por isso, a capacidade proativa de maior retorno em ambientes modernos, e a sua matéria-prima é a telemetria de autenticação, que existe em volume abundante em praticamente toda organização com IdP centralizado. Esta nota organiza os sinais de caça, as fontes e as consultas, e executa um caso completo de caça de token replay.
A nota pressupõe o ciclo de caça do capítulo 06 para a formulação de hipóteses e usa a sintaxe KQL introduzida na nota 03 do capítulo 09. A nota 03 deste capítulo estende o tema ao ambiente híbrido AD e Entra ID, e a nota 04 aprofunda os tokens e o OAuth, mecanismo por trás de vários sinais aqui tratados. A disciplina central é a mesma de todo hunting: hipótese explícita, dados nomeados, resultado documentado e produto que fecha o loop com a inteligência.
2. Identidade como Novo Perímetro
O perímetro moderno não é a fronteira de rede, mas o conjunto de identidades capazes de acessar recursos: contas humanas, contas de serviço, aplicativos federados e as credenciais que os representam. O atacante segue a mesma lógica do defensor econômico: roubar identidade custa menos que explorar código, escala melhor e deixa menos rastro binário. É por isso que o catálogo de intrusões recentes é dominado por password spray, roubo de sessão via AiTM, consenso fraudulento de aplicativo e abuso de ajuda técnica, e não por exploits de dia zero em servidores.
Para o hunter, essa realidade muda o desenho da caça. A pergunta deixa de ser "qual processo anômalo rodou no host" e passa a ser "qual comportamento de autenticação não combina com a identidade e com o recurso acessado". A resposta exige baseline: horas habituais, países habituais, dispositivos habituais e aplicações habituais por usuário, porque os sinais de identidade são relacionais e não absolutos. O hunting de identidade sem baseline gera filas de viagens impossíveis falsas causadas por VPN e por cache de CDNs de autenticação.
O baseline é a ferramenta central do hunting de identidade, e a sua construção é mais simples do que parece: para cada usuário ou grupo funcional, a organização conhece os países de acesso, os ASNs habituais, os dispositivos registrados, as aplicações consumidas e os horários de operação. O sinal de identidade ganha significado apenas na comparação com esse perfil, e um logon de Amsterdã às 3h pode ser rotina para o time de plantão e anomalia grave para a contabilidade. A caça madura começa pela modelagem do normal, e não pela lista de ataques possíveis.
| Dimensão de baseline | Exemplo de campo | Uso na caça |
|---|---|---|
| Geografia | Países e cidades habituais por usuário | Filtra viagens impossíveis falsas de VPN |
| Rede | ASNs de origem recorrentes | Separa residência e escritório de hosting |
| Dispositivo | IDs registrados e conformidade | Distingue logon de dispositivo novo de replay |
| Aplicação | Conjunto de apps por perfil funcional | Destaca uso de aplicação fora da função |
| Tempo | Janela de operação por equipe | Dá contexto aos horários incomuns |
3. Catálogo de Sinais de Caça
O catálogo abaixo reúne os sete sinais de maior produtividade no hunting de identidade, com a descrição operacional e o falso positivo frequente de cada um. A coluna de falso positivo não é detalhe: é ela que define o enriquecimento obrigatório de qualquer regra derivada destes sinais.
| Sinal | Descrição operacional | Falso positivo frequente |
|---|---|---|
| Sign-in anômalo | Local, dispositivo ou ASN incompatível com o baseline do usuário | VPN corporativa e roaming de frotas móveis |
| ASN de hosting e proxy | Autenticação originada de datacenter, não de residência ou escritório | Integrações e health checks mal documentados |
| MFA fatigue | Rajada de solicitações de push até a aprovação acidental | Usuário com token expirado insistindo em logar |
| Password spray | Um IP ou ASN, muitos usuários, poucas tentativas em cada | Varreduras de monitoramento e testes de disponibilidade |
| Consent abuse | Aplicativo novo solicitando escopos altos, aprovado fora do processo | Aplicativos de negócio aprovados por canal informal |
| Token replay | Mesmo token ou sessão usada em contextos geográficos incompatíveis | Cache legítimo e balanceadores com sessão persistente |
| Reset e registro de MFA anômalos | Alteração de fatores de segurança seguida de login novo | Usuário legítimo trocando celular e refazendo o registro |
A priorização entre sinais segue o risco do recurso acessado e não apenas a raridade do evento: um sign-in anômalo em conta de administrador global de IdP vale dezenas de alertas em conta padrão. Essa ponderação conecta o catálogo com a priorização de hipóteses do framework THRIVE e do capítulo 06, e com a pirâmide de dor, porque sinais comportamentais como token replay doem mais para o atacante do que os IPs que ele troca semanalmente.
A matriz de priorização considera dois eixos: a raridade do sinal no parque e o valor do recurso acessado. O sinal raro em conta de administrador global do IdP sai na frente do sinal frequente em conta padrão, e a mesma lógica vale para contas de serviço com escopos altos. O hunter registra a matriz junto com as hipóteses, porque a ordem de execução da caça é decisão analítica e não ordem de chegada de alertas.
4. Fontes de Dados de Identidade
A telemetria de identidade está distribuída em quatro fontes principais, e o hunter precisa conhecer os campos decisivos de cada uma antes de escrever consultas. A tabela abaixo organiza as fontes com os campos-chave e a cobertura que oferecem.
| Fonte | Campos-chave | Cobertura |
|---|---|---|
| Entra ID, logs de sign-in interativo | UserPrincipalName, IPAddress, Location, DeviceDetail, SessionId, ResultType, AuthenticationRequirement | Logons de usuário em aplicações federadas |
| Entra ID, logs não interativos | Mesmos campos, mais UniqueTokenIdentifier e SignInEventTypes | Uso de tokens de refresh e de backstage de aplicações |
| Entra ID, logs de auditoria | OperationName, InitiatedBy, TargetResources, modifiedProperties | Mudanças de permissão, consentimento e registro de dispositivo |
| IdP alternativo, como Okta System Log | actor, client, outcome, securityContext | Logons e mudanças administrativas fora do ecossistema Microsoft |
| VPN e SSO legado | Usuário, IP de origem, método de autenticação | Correlação de acesso remoto pré-cloud |
| Logs de recursos, como auditoria de caixa postal | Operações executadas após o logon | Consequência: o que a sessão realmente fez |
A última linha da tabela é a mais subestimada: o sinal de autenticação confirma a porta, mas é o log de recurso que prova o crime. A correlação entre logon e consequência, exibida no caso da seção 6, é o que separa a caça de identidade madura da pilha de alertas de viagem impossível.
A retenção das fontes orienta a logística da caça: os logs de sign-in do Entra ID ficam disponíveis nativamente por janela curta, e o envio para o SIEM é o que garante histórico suficiente para hipóteses de médio prazo. O hunter verifica três condições antes de iniciar: cobertura completa de usuários e aplicativos na fonte, campos de sessão e de token preservados no transporte e relógios sincronizados entre fontes para a correlação entre autenticação e consequência. Faltando qualquer uma das três, a hipótese é adiada e a lacuna de dados vira requisito formal junto ao time de plataforma.
5. Consultas KQL de Exemplo
As consultas abaixo ilustram o padrão de caça sobre a telemetria do Entra ID, cada uma ancorada em um sinal do catálogo da seção 3. Elas devem ser executadas com a janela temporal ajustada ao escopo da hipótese, e os limiares são pontos de partida a calibrar com o baseline da organização.
// Password spray: um IP, muitos usuários, rajada de falhas em 10 minutos
SigninLogs
| where ResultType in (50126, 50053)
| summarize tentativas = count(), usuarios = dcount(UserPrincipalName),
apps = dcount(AppDisplayName) by IPAddress, bin(TimeGenerated, 10m)
| where tentativas >= 20 and usuarios >= 5
| order by tentativas desc
// MFA fatigue: rajada de solicitações de segundo fator por usuário e IP em 1 hora
SigninLogs
| where ResultType == 50074
| summarize pushes = count() by UserPrincipalName, IPAddress, bin(TimeGenerated, 1h)
| where pushes >= 8
| project TimeGenerated, UserPrincipalName, IPAddress, pushes
| order by pushes desc
// Sign-in anômalo: dois países e três ASNs distintos na mesma hora por usuário
SigninLogs
| where ResultType == 0
| summarize paises = dcount(Country), asns = dcount(ASN),
dispositivos = dcount(tostring(DeviceDetail.deviceId))
by UserPrincipalName, bin(TimeGenerated, 1h)
| where paises >= 2 or asns >= 3
| order by paises desc
Cada consulta vira detecção permanente quando o falso positivo está controlado e a hipótese se confirma repetidamente, seguindo a ponte caça para deteção do capítulo 18. O inverso também vale: quando a consulta não produz nada por um trimestre, ela se aposenta do cronograma e fica registrada como hipótese testada, mantendo o catálogo de caça honesto e enxuto.
6. Caso de Caça: Token Replay
A hipótese que abre o caso nasceu de intel do capítulo anterior: grupos de acesso inicial roubam sessão via AiTM e reusam token dentro de minutos, e o sinal distintivo não é o logon anômalo, que o atacante evita, mas o uso do mesmo identificador de token em contexto geográfico incompatível. A caça seguiu o plano abaixo, e o resultado ilustrado é fictício, mas fiel ao padrão operacional real.
// Correlação interativo + não interativo para o usuário alvo, 24 horas
union SigninLogs, AADNonInteractiveUserSignInLogs
| where ResultType == 0 and UserPrincipalName == "diretoria@empresa.example"
| project TimeGenerated, OperationName, AppDisplayName, IPAddress,
Country, SessionId, UniqueTokenIdentifier
| order by TimeGenerated asc
A leitura da saída revelou a assinatura do replay: o token com UniqueTokenIdentifier 0aF3...b91 foi usado às 14h07 em São Paulo, com dispositivo registrado e MFA de phishing resistente, e às 14h15 o mesmo identificador apareceu consultando o Microsoft Graph a partir de um ASN de hosting em Amsterdã, sem dispositivo e sem MFA, porque o token dispensa reautenticação. Os logs de auditoria da caixa seguintes mostraram a consequência: uma busca de conteúdo criada às 14h19 e um download de anexos às 14h22, ambos iniciados pela mesma sessão. A resposta executou a revogação de sessões, a redefinição de credenciais e a revisão de regras de caixa, e o produto da caça incluiu a detecção permanente de replay por UniqueTokenIdentifier, a atualização do perfil de ameaça no TIP e a recomendação de proteção de token, detalhada na nota 04 deste capítulo.
O caso ilustra a estrutura que toda caça de identidade deve ter: hipótese com origem declarada, consulta que correlaciona autenticação com consequência, linha do tempo fechada e produto em três camadas, deteção, resposta e inteligência. A ausência de qualquer uma das camadas reduz a caça a curiosidade analítica.
O protocolo de resposta ao achado abaixo formaliza a transição da caça para a resposta, e cada passo tem dono definido no playbook de identidade.
1. Confirmar a anomalia com a linha do tempo completa de autenticação e consequência.
2. Revogar sessões e refresh tokens do usuário afetado antes de qualquer comunicação.
3. Redefinir credenciais e revalidar os fatores de segurança registrados.
4. Revisar regras de caixa, permissões OAuth e registros de dispositivo criados na janela.
5. Registrar a cadeia no TIP e no caso de incidente, com carimbos e evidências.
6. Alimentar a deteção permanente e o ciclo de inteligência com o novo padrão.
7. Erros Comuns e Pontos de Atenção
O erro mais comum é caçar sem baseline e transformar o catálogo da seção 3 em fábrica de viagens impossíveis falsas, descredenciando a caça de identidade junto ao SOC. O erro mais grave é parar no sinal de autenticação sem examinar a consequência, encerrando o caso na pergunta errada. Ambos se corrigem com a mesma disciplina: enriquecer o sinal com o contexto de identidade e sempre correlacionar com o log do recurso acessado.
Completam a lista os itens abaixo.
- Tratar ASN de CDN de autenticação como hostil, gerando volume impossível de manter.
- Ignorar contas de serviço e aplicativos federados no escopo da caça, que ficam com o perímetro apenas humano.
- Usar limiares copiados de consultas públicas sem calibrar com o parque da organização.
- Não revogar sessões após o achado, deixando o token vivo enquanto a senha é trocada.
- Fechar o caso sem documentar a hipótese testada, perdendo o acervo que evita retrabalho futuro.
-
Não devolver o achado ao TIP, deixando a inteligência sem o feedback que abre o próximo PIR.
-
Tratar todo alerta de identidade como incidente, esgotando a capacidade de resposta antes das hipóteses de maior valor.
- Aplicar o mesmo limiar a contas humanas e de serviço, ignorando que as de serviço têm padrão de uso próprio.
-
Tratar os logs de recurso como opcional, encerrando a caça na porta sem examinar o que a sessão fez.
-
Não calibrar a janela temporal das consultas, propondo hipóteses que o histórico disponível não consegue responder.
- Executar a caça com conta de leitura ampla fora de ambiente controlado, expondo dados sensíveis de identidade.
8. Integração com o Restante da Biblioteca
A nota consome intel da nota 01 deste capítulo e do capítulo 05 para priorizar hipóteses, e produz deteções para o capítulo 18 pela ponte caça para deteção. A nota 10 do capítulo 08 cobre o mesmo domínio pela perspectiva de TTPs ATT&CK, e a nota 03 deste capítulo estende a caça ao ambiente híbrido AD e Entra ID, onde a sincronização cria pontes de ataque próprias. A nota 04 aprofunda os mecanismos de token e OAuth que explicam sinais como replay e consent abuse. No framework CTH, a caça de identidade alimenta os controles do grupo HNT e a resposta aos achados ancora no ciclo de resposta do capítulo 07, fechando o circuito proativo que o capítulo 26 se propõe a montar.