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02 - IR.2 - Triagem e Classificação de Incidentes

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IR.2 - Triagem e Classificação de Incidentes

Nota do grupo RES (Resposta a Incidentes Integrada) da seção 15 do Framework CTH.
Deriva do Capítulo 16 do PDF de referência, controle IR.2, com os subcontroles IR.2.1 a IR.2.5.
Define a triagem como o filtro que decide onde o tempo do time é gasto, com critérios objetivos de severidade, matriz de quatro níveis, classificação por tipo de incidente, enriquecimento automático e métricas de precisão.

1. Contexto e Posicionamento no Framework CTH

Toda fila de segurança tem mais sinais do que gente, e a triagem é o ponto onde essa assimetria é resolvida para bem ou para mal. Incidentes críticos classificados como baixos dão ao adversário horas ou dias de vantagem; incidentes triviais inflados a críticos consomem o time em ruído e produzem fadiga de alerta. A classificação consistente é ainda a base das métricas confiáveis do MET.x, do reporte executivo do GOV e da melhoria contínua do programa de resposta.

No framework, o IR.2 ocupa o lugar entre a detecção e a ação: recebe alertas do DET, achados de hunt do HNT e reportes externos, decide prioridade e encaminha para o IR.1, que estrutura o caso, e para o IR.3, que executa contenção. A automação de triagem conversa com o AUT.3 e o AUT.2, que aplicam regras de classificação e enriquecimento em escala, sempre com critérios documentados e auditáveis, porque triagem sem critério explícito é opinião disfarçada de processo.

2. A Triagem como Filtro que Decide Onde o Tempo é Gasto

A pergunta operacional da triagem não é se o alerta é interessante, e sim se ele merece o próximo par de mãos disponível agora. Cada minuto gasto investigando varredura genérica é um minuto não gasto numa comunicação C2 num servidor de produção, e o adversário só precisa que o time erre uma vez nessa alocação. Por isso a triagem profissional se apoia em três pilares: critérios de severidade objetivos, enriquecimento automático que chega antes do humano e registro do raciocínio no caso.

O filtro precisa ser rápido sem ser raso. A triagem inicial de incidente crítico deve ocorrer em no máximo 15 minutos, e de incidente alto em até 1 hora, conforme o IR.2, e nesse tempo o analista não produz relatório: ele confirma que o sinal é real, estima impacto e dispara o caminho de escalada. O registro do porquê da classificação é parte da tarefa, e não burocracia, pois é ele que permite auditar precisão semanas depois e recalibrar critérios com dados reais.

3. Critérios de Severidade Objetivos

Severidade decidida por manchete de notícia ou pela voz mais alta do plantão é receita de instabilidade. O critério deve ser escrito, acordado com a alta direção, como pede o IR.2.1, e aplicar as cinco dimensões abaixo em ordem de peso negociado pela organização.

Critério Pergunta de triagem Exemplo de aplicação
Impacto potencial O que acontece se o sinal for confirmado e nada for feito Ciframento de arquivos versus varredura genérica
Criticidade do ativo Qual o valor do ativo afetado no inventário do INS.1 Controlador de domínio versus estação de kiosque
Credibilidade da evidência Quão confiável é a fonte e o indicador no TIP IOC de fonte primária versus regra de baixa precisão
Escopo Quantos ativos, usuários ou segmentos estão envolvidos Um host versus quinze hosts no mesmo segmento
Velocidade de propagação O sinal cresce, se replica ou se move Ransomware se espalhando por compartilhamentos

A combinação dos critérios evita os dois erros espelhados: subestimar um beacon silencioso num ativo crítico e superestimar um phishing em massa com zero cliques confirmados. Recomenda-se tabela de decisão por combinação, com exemplos reais da casa, aprovada pela direção, porque o dia do incidente não é o dia de negociar o que é crítico.

4. Matriz de Severidade com Quatro Níveis

O framework define quatro níveis com critérios claros e tempos de resposta obrigatórios. A matriz abaixo é um modelo preenchido para adaptação, com SLA de triagem, contenção e resolução por nível e o caminho de escalada correspondente.

Severidade Critérios típicos Triagem Contenção Resolução Escalonamento
Crítico Ransomware ativo, exfiltração massiva confirmada, conta privilegiada comprometida com atividade suspeita, ataque ativo em produção 15 min 1 hora 4 horas SOC L1 e L2, gerente, CISO e diretoria afetada imediatos; comunicação externa em até 2 horas
Alto Malware em endpoint crítico, phishing com credenciais comprometidas, acesso não autorizado a sistema sensível, C2 identificada 1 hora 4 horas 24 horas SOC L2 e gerente de incidentes; CISO em até 4 horas; forense em standby
Médio Malware em endpoint não crítico, phishing sem comprometimento confirmado, suspeita que exige investigação adicional 4 horas 24 horas 72 horas SOC L2; gerente no próximo horário comercial; sem escalada externa
Baixo Evento de baixa complexidade, falso positivo recorrente, varredura não direcionada 24 horas Sem exigência 1 semana SOC L1; registro e monitoramento; inclusão no relatório mensal

A matriz vale apenas se for viva: cada reclassificação durante a investigação deve ser documentada com justificativa no caso, conforme o IR.2, e a taxa de reclassificação vira insumo do IR.2.5 para recalibrar critérios. Matriz que nunca muda é matriz que ninguém lê, e matriz que muda toda semana é matriz que nunca teve dono.

Dois detalhes operacionais protegem a matriz no dia a dia. O primeiro é o teto de prioridades simultâneas: definir quantos casos Críticos e Altos o plantão consegue conduzir de verdade, porque matriz que admite vinte críticos ao mesmo tempo não classifica nada, apenas redistribui o caos. O segundo é a severidade provisória na abertura: casos sem enriquecimento completo entram com severidade conservadora e revisão obrigatória em 30 minutos, evitando tanto o crítico fantasma quanto o alto esquecido.

5. Classificação por Tipo de Incidente

Além da severidade, o tipo de incidente orienta playbook, especialista e contenção esperada, e é um dos campos obrigatórios do template do IR.1.2. A tabela abaixo resume os tipos essenciais com seus sinais de abertura e o enfoque inicial típico.

Tipo Sinais típicos de abertura Severidade inicial comum Enfoque imediato
Malware Detecção de antimalware, hash conhecido, comportamento de processo Médio a Alto Isolar host, coletar amostra, buscar incidências do hash
Ransomware Extensões alteradas em massa, nota de resgate, volume anômalo de escrita Crítico Contenção agressiva imediata e cortar compartilhamentos
Phishing Reporte de usuário, gateway apontando campanha, clique confirmado Médio Recolher mensagem, verificar cliques, resetar se credencial digitada
Conta comprometida Login impossível, MFA fatigado, regra de encaminhamento nova Alto Revogar sessão, resetar, revisar privilégios e apps OAuth
Exfiltração Pico de saída para destino externo, serviço de nuvem pessoal, DNS anômalo Crítico Bloquear destino, preservar evidência, quantificar volume
Abuso de acesso Uso legítimo de credencial para fim indevido, acesso fora do horário Médio a Alto Revisar log de acesso, correlacionar com função e autorização

O mesmo sinal pode mudar de tipo conforme a investigação avança: um phishing com clique pode virar conta comprometida, e uma conta comprometida pode ser a face visível de exfiltração. O tipo é um campo vivo, atualizado com justificativa, e a dupla tipo mais severidade determina qual playbook do AUT.1 é acionado.

6. Enriquecimento Automático na Abertura

A decisão em minutos só é possível quando o contexto chega junto com o alerta, e não depois de dez abas abertas manualmente. O enriquecimento automático na abertura do caso consulta o TIP para o IOC em questão, serviços de reputação, o CMDB para o ativo e o histórico do usuário envolvido, anexando o dossiê à página do caso antes do primeiro olhar humano. A automação aplica regras pré-definidas de classificação com base em IOC conhecidos, tipo de alerta, criticidade do ativo e contexto histórico de alertas similares, como define o IR.2.3.

Checklist de enriquecimento na abertura do caso
IOC do alerta:
  |__ Está no TIP? confiança, fonte, TLP, data de última vista
  |__ Reputação externa? DNS, WHOIS, idade do domínio, categoria no proxy
Ativo envolvido:
  |__ Existe no CMDB? criticidade, dono, ambiente, exposição externa
  |__ Tem EDR? versão do agente, última telemetria recebida
Usuário envolvido:
  |__ Cargo e privilégios? administrador, acesso a dados sensíveis
  |__ Histórico 30 dias? alertas anteriores, mudança recente de função
Contexto temporal:
  |__ Alertas similares nas últimas 72 horas? quantos, com que desfecho
Regra de decisão:
  |__ IOC de fonte primária E ativo crítico: elevar para Crítico
  |__ IOC desconhecido E ativo comum: Médio com recomendação de análise
  |__ Zero cliques confirmados em campanha em massa: Médio, processo em lote

O exemplo de fluxo automatizado da plataforma SOAR ilustra o ganho de escala: um alerta do SIEM chega, o workflow consulta o IP de destino no repositório de IOC e em serviços de reputação, e em menos de 30 segundos o caso nasce classificado com prioridade elevada ou com recomendação de investigação rápida. O humano entra para julgar o que a regra não cobre, e o registro da decisão automática fica auditável no caso.

Playbook de triagem automatizada: phishing em massa
Gatilho:  gateway de e-mail detecta campanha com mais de 50 destinatários
Passo 1:  extrair remetente, domínio, URL e hash do anexo como observables
Passo 2:  enriquecer contra TIP, reputação e veredito de sandbox
Passo 3:  classificar automaticamente:
          |__ Anexo confirmado malicioso: Alto, abrir caso único consolidado
          |__ URL confirmada de phishing: Alto, abrir caso único consolidado
          |__ Sem confirmação e zero cliques: Médio, processar em lote
          |__ Anexo limpo e domínio legítimo: Baixo, registrar e fechar
Passo 4:  no caso consolidado, listar destinatários que clicaram ou
          abriram anexo, com carimbo de cada evento
Passo 5:  se credencial digitada em página falsa, elevar para conta
          comprometida e acionar playbook de revogação de sessão
Passo 6:  recolher mensagem das caixas restantes conforme política,
          preservando amostra antes do recolhimento
Saída:    caso único com lista de afetados, severidade justificada e
          recomendação de bloqueio do domínio no proxy

O playbook mostra dois princípios que valem para qualquer triagem automatizada. O caso é único e consolidado por campanha, e não um caso por destinatário, porque cinquenta tickets iguais destroem a fila e a métrica. E a regra de elevação por credencial digitada conecta o tipo phishing ao tipo conta comprometida automaticamente, garantindo que o risco real, que é a identidade, receba o tratamento correspondente sem esperar que alguém reabra o processo.

7. SLA por Severidade e Gestão de Estouro

SLA sem consequência operacional é decoração, e estouro recorrente é sintoma de capacidade mal dimensionada. O monitoramento deve medir por nível o percentual de casos dentro do prazo de triagem, contenção e resolução, e o estouro deve acionar um caminho definido, e não apenas um e-mail de desculpa. Quando a fila de críticos ou altos ameaça estourar, o caminho mínimo é: escalar para o coordenador de plantão, reavaliar prioridade de casos abertos com olhar de portfólio, ativar reforço do segundo turno e, se o padrão persistir, acionar o GOV para decisão de capacidade.

O estouro também informa o processo. Quando P2 se acumula além da capacidade e P1 são raros, o problema pode estar na inflação de severidade, e não na falta de gente; quando P1 estoura, o problema é estrutural de playbooks, automação ou escalação. A revisão mensal do IR.2.5, que mede padrões de classificação incorreta, é o fórum que separa um do outro com dados.

8. Erros de Triagem Frequentes

  • Severidade inflada por manchete: notícia de ataque no setor empurra a casa para crítico sem qualquer evidência local; o critério é a evidência interna, e a manchete entra como contexto no caso, e não como severidade.
  • Fila infinita de P2: tudo é importante, então nada é; sem teto de prioridades e sem downgrading documentado, o time vive no Alto e ignora o Médio de verdade.
  • Triagem sem registro do porquê: classificação sem justificativa escrita impede auditoria de precisão, esconde viés do plantão e impede o ajuste de critérios com dados do IR.2.5.
  • Enriquecimento manual e tardio: analista caçando reputação em dez abas queima minutos críticos e padroniza mal; a coleta de contexto deve ser automática na abertura.
  • Severidade que nunca é rebaixada: medo de reclassificar mantém casos críticos semanas na fila, corroendo a credibilidade da matriz inteira.
  • Escalonamento por apelido: notificar a pessoa que conhece em vez de seguir a matriz do IR.2.2 funciona até o dia em que essa pessoa está de férias; matriz e contatos de plantão existem para esse dia.

9. Métricas de Triagem

Métrica Como medir Uso principal
Tempo de primeira análise Da criação do caso ao primeiro registro analítico Verifica SLA do IR.2 e capacidade do plantão
Taxa de escalada Proporção de casos que sobem de nível ou de time Revela subtriagem ou lacuna de competência
Precisão de severidade Percentual de casos sem reclassificação relevante Indicador central do IR.2.5 para calibrar critérios
Taxa de falsos positivos confirmados Casos fechados como falso positivo por regra de origem Alimenta ajuste de detecções com o AUT.3 e o DET
Tempo médio de triagem por tipo Mediana por tipo de incidente e por severidade Exibe onde automatizar mais com SOAR
Estouro de SLA Percentual de casos fora do prazo por nível Gatilho do caminho de capacidade do GOV

A precisão de severidade merece leitura cuidadosa, porque taxa de reclassificação alta em um sentido específico conta uma história: se casos Médios sobem para Alto com frequência, o critério está subestimando impactos; se Altos descem para Médio com frequência, o plantão está inflando por prudência ou pela manchete do dia. A meta não é zero reclassificação, que indicaria critério rígido demais para a realidade, e sim reclassificação em faixa estreita e documentada.

10. Implementação e Salvaguardas por Nível

Nível Salvaguarda Descrição operacional
Básico IR.2.1 Definir e documentar quatro níveis de severidade com critérios objetivos e exemplos concretos, acordados com a alta direção e com impactos de negócio
Básico IR.2.2 Estabelecer matriz de escalonamento por severidade, com tempos máximos de notificação e canais primário e secundário, inclusive fora do horário comercial
Intermediário IR.2.3 Implementar triagem inicial automatizada em SOAR ou plataforma de workflow, classificando alertas de alto volume por IOC, tipo, criticidade do ativo e histórico
Intermediário IR.2.4 Configurar reclassificação automática quando novas informações chegam ao caso, como enriquecimento positivo em threat feeds ou confirmação forense
Avançado IR.2.5 Analisar classificação histórica, medir taxa de reclassificação, identificar padrões de erro e ajustar critérios de triagem com dados reais

O salto do IR.2.2 para o IR.2.3 é o que transforma a matriz em comportamento em escala, e por isso exige que a matriz esteja madura: automatizar critério mal escrito apenas distribui o erro mais rápido. Já o IR.2.5 pressupõe meses de dados de casos estruturados no IR.1, reforçando a dependência entre os controles do grupo.

11. Integração com Outros Controles do Framework CTH

O IR.2 consome criticidade de ativo do INS.1, confiança de IOC do PLT.1 e contexto de detecção do grupo DET, e devolve prioridade ao IR.1, que estrutura o caso, e ao IR.3, que executa a contenção no ritmo que a severidade determina. A reclassificação automática do IR.2.4 depende do enriquecimento contínuo do AUT.2 e do AUT.3, e as métricas de precisão alimentam o MET.x e a revisão executiva do GOV. Achados que chegam de hunt do HNT passam pela mesma porta, com severidade provisória conservadora até a verificação, o que mantém um só vocabulário de prioridade para toda a esteira.