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03 - Active Directory e Microsoft Entra ID

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Active Directory e Microsoft Entra ID

Nota 03 do capítulo 26, que mapeia o ambiente híbrido de identidade: a superfície do AD on-premises, a do Entra ID e as pontes entre os dois planos.
O foco são as TTPs de cada lado, os ataques que atravessam sincronização e federação e a correlação de caça híbrida.
Dialoga com a nota 09 do capítulo 08 (hunting em AD), com as notas 02 e 04 deste capítulo e com o capítulo 03 (TTPs).

1. Contexto e Posicionamento na Biblioteca

A grande maioria das grandes organizações opera identidade em modo híbrido: o Active Directory on-premises que nasceu com a empresa, o Microsoft Entra ID que nasceu com o cloud e a ponte de sincronização que os costura. O atacante trata esse conjunto como um único sistema de identidade com duas superfícies e duas ou três pontes, e a defesa que olha apenas um lado permanece cega para metade das técnicas. Esta nota mapeia as superfícies, as TTPs de cada lado e as pontes que as conectam, fechando com a correlação de caça híbrida e um exemplo de anomalia de sincronização.

A nota pressupõe o hunting de identidade da nota 02 deste capítulo e o catálogo de TTPs do capítulo 03, e usa a telemetria de eventos do Windows introduzida na nota 09 do capítulo 08. O objetivo é construir a visão integrada que permite ao hunter seguir uma cadeia de ataque que começa no Kerberos do AD e termina em um aplicativo OAuth no Entra ID, ou o inverso, começar no cloud e descer ao on-premises.

2. O Ambiente Híbrido e suas Superfícies

O ambiente híbrido tem três componentes estruturais e três modos de sincronização que definem a superfície de ataque. O AD DS mantém o plano de autenticação Kerberos e NTLM no domínio; o Entra ID mantém o plano de autenticação moderno para o cloud; e o Entra Connect sincroniza objetos e atributos entre os dois, com uma conta de serviço dedicada que escreve no diretório cloud. A tabela abaixo resume os componentes e os modos com o risco característico de cada um.

Componente ou modo Papel Risco característico
AD DS on-premises Autenticação Kerberos e NTLM, GPOs, recursos internos Reconhecimento e movimentação lateral com protocolos legados
Entra ID Identidade para SaaS e serviços cloud, OAuth e condicional Abuso de token, consentimento e aplicativo
Entra Connect Sincronização de objetos e atributos Conta de sincronização como ponte de escrita para o cloud
PHS, Password Hash Sync Hashes de senha sincronizados para o Entra ID Comprometimento da infraestrutura de sync expõe o plano de senha
PTA, Pass-through Authentication Senha validada no AD por agente Agente PTA comprometido captura credenciais em texto claro
Federação com ADFS Autenticação delegada ao on-premises Asserção SAML forjada, o Golden SAML

A leitura estratégica da tabela é que cada modo de autenticação desloca o ativo crítico de lugar: no PHS o segredo está na sincronização, no PTA está no agente, na federação está no certificado de assinatura do ADFS. O hunting híbrido precisa, por isso, cobrir as três residências de segredo, e a nota 04 deste capítulo complementa o quadro com o plano de tokens e sessões que circula depois da autenticação.

A segmentação em camadas de privilégio, o modelo de tiers, organiza a superfície e orienta a prioridade da caça: contas de Tier 0, com controle direto ou indireto sobre o domínio e sobre o híbrido, recebem telemetria reforçada e restrições de logon, e a conta de sincronização pertence a essa camada por definição. O hunter usa a mesma segmentação para calibrar limiares, porque um evento raro em conta de Tier 0 exige investigação imediata enquanto o mesmo evento em conta padrão apenas agrega à fila de triagem. O inventário de tiers é, portanto, pré-requisito do hunting híbrido, e a sua ausência aparece na primeira onda de falsos positivos.

3. TTPs no Lado On-Premises

O catálogo on-premises é dominado pelo ecossistema Kerberos e pelo modelo de delegação do AD, e a telemetria de eventos do Windows é madura e bem documentada. A tabela abaixo organiza as técnicas de maior prevalência com o mapeamento ATT&CK e o evento principal de caça.

TTP ATT&CK Telemetria principal
Kerberoasting T1558.003 Evento 4769 em rajada por usuário com criptografia RC4
DCSync T1003.006 Evento 4662 com GUID de replicação em conta que não é DC
Golden Ticket T1558.001 TGT com atributos anômalos e uso do KRBTGT exposto
Pass-the-Hash T1550.002 Logon 4624 tipo 3 sem autenticação interativa prévia
AS-REP Roasting T1558.004 Evento 4768 para contas sem pré-autenticação
Reconhecimento LDAP e BloodHound T1087, T1069 Consultas LDAP em massa originadas de estações não servidor
Criação de serviço para persistência T1543.003 Evento 7045 com binário em caminho atípico

A característica que define a caça on-premises é a densidade de correlação possível: o mesmo servidor Windows emite os eventos de autenticação, de acesso a objeto e de serviço, e o hunter constrói cadeias curtas, como rajada de 4769 seguida de 4662 de replicação, que quase não geram falso positivo.

A leitura da tabela também orienta a coleta: sem os eventos 4769, 4662 e 7045 encaminhados, metade das técnicas do catálogo fica invisível, e a lacuna de coleta precisa aparecer no inventário de dados do framework CTH. O lado on-premises é onde o atacante obtém os privilégios que atravessam a ponte, e por isso a caça aqui tem valor antecipatório sobre o cloud: a kerberoasting de hoje é a mudança de permissão cloud da semana que vem. A prioridade de coleta segue essa lógica de cadeia, e não a conveniência de cada fonte. O lado on-premises também concentra o risco estrutural de privilégio: o membro do grupo de administradores de domínio que loga em estação de usuário abre a cadeia completa de roubo de credencial que termina na ponte de sincronização.

4. TTPs no Lado Entra ID

O catálogo cloud é dominado por abuso de identidade moderna, e a telemetria muda de natureza: em vez de eventos de sistema, o hunter consome logs de sign-in e de auditoria do provedor. A tabela abaixo organiza as técnicas de maior prevalência com o comportamento observado e a telemetria correspondente.

TTP Comportamento observado Telemetria principal
Password spray T1110.003 ResultType 50126 em massa por IP e por ASN
MFA fatigue T1621 Rajada de ResultType 50074 até aprovação
Consent phishing T1528 AuditLogs Consent to application com escopos altos
Roubo e replay de token T1550.004 Sessão usada em ASN incompatível com o baseline
Registro de dispositivo abusivo T1098.005 AuditLogs Register device fora de janela e de frota
Reset de MFA pelo atacante T1098 Register security information precedido de vishing
Backdoor federado T1606.002 Alteração de trusted domain e certificado de assinatura

O contraste com o lado on-premises orienta a arquitetura de caça: no Entra ID a raridade absoluta vale menos e a correlação com identidade vale mais, porque a plataforma já filtra a maior parte do ruído de rede. O registro administrativo, quem consentiu, quem registrou, quem resetou, é o campo mais produtivo, e a cadeia típica moderna é a combinação: vishing para reset de MFA, login novo, registro de dispositivo e consentimento de aplicativo, tudo em horas.

5. As Pontes: Sincronização e Federação

As pontes são onde o híbrido se torna único sistema para o atacante, e três mecanismos concentram o risco. A primeira ponte é a conta de sincronização do Entra Connect, que tem permissão de escrita no diretório cloud e, se o servidor de sync for comprometido, transforma mudanças no AD em mudanças administrativas no Entra ID, inclusive por group write-back. A segunda é o Golden SAML, em que o atacante que extrai o certificado de assinatura do ADFS forja asserções para qualquer usuário, inclusive administradores globais, sem tocar em senha e sem MFA, técnica documentada em casos como o APT29 e a intrusão via SolarWinds. A terceira é o agente PTA, que recebe a senha em texto claro no fluxo de validação e, comprometido, captura credenciais em escala.

Ponte Vetor de abuso Sinal de caça principal
Conta de sincronização Escrita no cloud a partir do AD comprometido Auditoria com mudanças iniciadas pela conta de sync fora do padrão
Group write-back Privilegio cloud herdado de grupo on-premises Mudança de membros de grupo sincronizado por ator on-premises
Golden SAML Asserção forjada com certificado do ADFS Logon federado sem correspondência de evento no ADFS
Agente PTA Captura de senha em texto claro Comprometimento do servidor host do agente
Registro de dispositivo Entrada do atacante na confiança condicional Registro de dispositivo por conta de sync ou de serviço

A consequência analítica é a direção do fluxo: a ponte carrega ataque nos dois sentidos, e o hunter precisa avaliar cada achado perguntando de qual lado a iniciativa nasceu. Um grupo sincronizado com membro novo é inofensivo se o dono do grupo aprovou, e crítico se a mudança nasceu de uma estação comprometida com acesso de escrita no AD.

A proteção operacional das pontes tem checklist estabelecido: o servidor de sync e o host do agente PTA pertencem ao Tier 0 e não recebem logon interativo de administradores comuns, o certificado de assinatura do ADFS é mantido em módulo de segurança com acesso restrito, e a rotação do KRBTGT segue o calendário de resposta a incidentes. O hunting desses ativos acompanha a mesma disciplina: qualquer logon, serviço ou script novo nesses hosts entra na fila de análise, porque a rotina normal deles é conhecida e pequena. A exceção investigada é sempre mais barata do que a exceção assumida.

6. Hunting Híbrido com Correlação

A caça híbrida exige telemetria dos dois lados na mesma plataforma de análise, com o relógio sincronizado e o identificador de usuário normalizado entre o sAMAccountName e o UPN. O padrão de correlação mais produtivo é a sequência entre lados: eventos on-premises que precedem mudanças cloud, e mudanças cloud que autorizam acessos on-premises. A tabela abaixo apresenta os pares de sinal de maior valor.

Sinal on-premises Sinal cloud Interpretação
Reset de senha 4724 em conta privilegiada Registro de informações de segurança em 24 horas Possível preparação de acesso do atacante
4662 de replicação por conta não DC Logon administrativo cloud subsequente Cadeia DCSync com uso imediato de privilégio
Comprometimento suspeito do servidor de sync Auditoria com escrita da conta de sync Ponte on-premises para cloud em atividade
Evento 4769 em rajada por conta de serviço Uso anômalo do token do serviço no cloud Kerberoasting com aproveitamento cloud

A consulta abaixo exemplifica o padrão de sequência entre lados, unindo o reset de senha no AD ao registro de fatores de segurança no Entra ID dentro de 24 horas, janela típica de preparação de acesso pelo atacante.

let resets = SecurityEvent
  | where EventID == 4724
  | project T0 = TimeGenerated, Alvo = TargetUserName;
AuditLogs
| where OperationName == "Register security information"
| extend Alvo = tostring(TargetResources[0].userPrincipalName)
| join kind=inner resets on Alvo
| where TimeGenerated > T0 and TimeGenerated < T0 + 24h
| project Alvo, ResetAD = T0, RegistroMFA = TimeGenerated
| order by Alvo asc, RegistroMFA asc

As ferramentas de suporte também ajudam: soluções de detecção dedicadas a AD enriquecem a telemetria com a resolução dos protocolos Kerberos e LDAP, e o encaminhamento dos eventos on-premises para a mesma plataforma de análise cloud é o pré-requisito prático das consultas desta seção. O custo de manter a telemetria unificada é menor do que o custo de investigar um híbrido com metade da história em cada repositório. A nota 01 do capítulo 12 trata exatamente do risco de dado ausente ou tardio no inventário de caça.

7. Exemplo de Caça: Anomalia de Sincronização

A hipótese do caso: a conta de sincronização escreve no cloud o que o AD manda escrever, e o atacante que controla o servidor de sync a usa para mudanças que o fluxo normal nunca faria, como alterações em contas privilegiadas fora da janela de manutenção. A caça parte da auditoria do Entra ID filtrando as operações iniciadas pela conta de sincronização e compara com a linha de base de horários e de alvos.

AuditLogs
| where OperationName has_any ("Update user", "Add member to group")
| extend Iniciador = tostring(parse_json(tostring(InitiatedBy.app)).displayName)
| where Iniciador has "Directory Synchronization"
| extend Alvo = tostring(TargetResources[0].userPrincipalName)
| extend Atributo = tostring(TargetResources[0].modifiedProperties[0].displayName)
| summarize mudancas = count(), alvos = make_set(Alvo), atributos = make_set(Atributo)
    by bin(TimeGenerated, 1h)
| where hourofday(TimeGenerated) !between (2 .. 5)
| order by mudancas desc

A saída fictícia do exercício trouxe um cluster suspeito: três atualizações de usuário às 09h40 de uma terça-feira, com o atributo de endereços de proxy alternativos alterados em duas contas de diretoria, padrão compatível com a preparação de redirecionamento de mensagem. A verificação no lado on-premises confirmou que a mesma mudança nasceu de uma estação de usuário com evento 4662 de escrita no atributo, e não do servidor de sync em sua rotina. A resposta removeu os endereços injetados, isolou a estação de origem, rotacionou as credenciais da conta de sincronização e gerou duas entregas: a deteção permanente do padrão de proxyAddress alterado por sync fora da janela, e a atualização do perfil de ameaça no TIP com a técnica observada, alimentando o PIR sobre proteção da infraestrutura de sincronização.

O ponto analítico que o caso fixa é a direção da investigação: a anomalia apareceu no cloud, mas a origem estava no on-premises, e a linha do tempo só fechou com os eventos da estação de origem. Essa travessia entre planos é o padrão do ambiente híbrido e exige que o hunter tenha acesso simultâneo às duas telemetrias, com o relógio sincronizado e a identidade normalizada. O caso entrou para a base de caças da equipe como hipótese reutilizável, e a consulta da seção 6 virou execução mensal no cronograma.

8. Erros Comuns e Pontos de Atenção

O erro estrutural é operar duas caçadas paralelas, uma para o AD e outra para o Entra ID, sem a plataforma comum que permite a correlação entre lados, perdendo exatamente as cadeias que atravessam a ponte. O erro técnico frequente é não normalizar a identidade entre sAMAccountName e UPN, quebrando os joins e gerando achados que parecem falsos por artefato de dado. Ambos se corrigem com a mesma decisão de arquitetura de dados, telemetria híbrida unificada e identidade normalizada.

Completam a lista os itens abaixo.

  • Tratar a conta de sincronização como infraestrutura invisível, sem monitorar o que ela escreve e quando escreve.
  • Ignorar o modo de autenticação do híbrido e caçar Golden SAML num ambiente que opera com PHS, onde a ponte é outra.
  • Deixar o KRBTGT sem rotação após incidente com DCSync, permitindo o Golden Ticket indefinidamente.
  • Não auditar os grupos sincronizados por write-back, porta de entrada de privilégio cloud a partir do AD.
  • Excluir contas de serviço da caça de identidade, ficando cego para as identidades mais usadas nas pontes.
  • Correlacionar sem sincronizar relógios entre fontes, produzindo sequências falsas que contaminam a linha do tempo.

  • Deixar o servidor de sincronização fora do perímetro de caça por ser infraestrutura "estável".

  • Assumir que PTA e PHS exigem as mesmas deteções, ignorando que os segredos vivem em lugares diferentes.

9. Integração com o Restante da Biblioteca

A nota estende a caça de identidade da nota 02 e antecipa a mecânica de tokens da nota 04, e recebe do capítulo 03 o enquadramento das TTPs e do capítulo 08, nota 09, a base de telemetria de eventos do Windows usada na correlação. As deteções híbridas alimentam o capítulo 18, e a proteção da infraestrutura de sincronização conecta com os controles do framework CTH dedicados a identidade e a preparação de caça. Na frente de inteligência, os achados híbridos são material de primeira ordem para o documento de campanha, porque revelam o domínio operacional do adversário sobre o ambiente como um todo, e o perfil de ameaça atualizado no TIP fecha o loop que o capítulo 26 se propõe a manter em movimento.