03 - Active Directory e Microsoft Entra ID
video: https://youtu.be/... no frontmatter da nota.Active Directory e Microsoft Entra ID
Nota 03 do capítulo 26, que mapeia o ambiente híbrido de identidade: a superfície do AD on-premises, a do Entra ID e as pontes entre os dois planos.
O foco são as TTPs de cada lado, os ataques que atravessam sincronização e federação e a correlação de caça híbrida.
Dialoga com a nota 09 do capítulo 08 (hunting em AD), com as notas 02 e 04 deste capítulo e com o capítulo 03 (TTPs).
1. Contexto e Posicionamento na Biblioteca
A grande maioria das grandes organizações opera identidade em modo híbrido: o Active Directory on-premises que nasceu com a empresa, o Microsoft Entra ID que nasceu com o cloud e a ponte de sincronização que os costura. O atacante trata esse conjunto como um único sistema de identidade com duas superfícies e duas ou três pontes, e a defesa que olha apenas um lado permanece cega para metade das técnicas. Esta nota mapeia as superfícies, as TTPs de cada lado e as pontes que as conectam, fechando com a correlação de caça híbrida e um exemplo de anomalia de sincronização.
A nota pressupõe o hunting de identidade da nota 02 deste capítulo e o catálogo de TTPs do capítulo 03, e usa a telemetria de eventos do Windows introduzida na nota 09 do capítulo 08. O objetivo é construir a visão integrada que permite ao hunter seguir uma cadeia de ataque que começa no Kerberos do AD e termina em um aplicativo OAuth no Entra ID, ou o inverso, começar no cloud e descer ao on-premises.
2. O Ambiente Híbrido e suas Superfícies
O ambiente híbrido tem três componentes estruturais e três modos de sincronização que definem a superfície de ataque. O AD DS mantém o plano de autenticação Kerberos e NTLM no domínio; o Entra ID mantém o plano de autenticação moderno para o cloud; e o Entra Connect sincroniza objetos e atributos entre os dois, com uma conta de serviço dedicada que escreve no diretório cloud. A tabela abaixo resume os componentes e os modos com o risco característico de cada um.
| Componente ou modo | Papel | Risco característico |
|---|---|---|
| AD DS on-premises | Autenticação Kerberos e NTLM, GPOs, recursos internos | Reconhecimento e movimentação lateral com protocolos legados |
| Entra ID | Identidade para SaaS e serviços cloud, OAuth e condicional | Abuso de token, consentimento e aplicativo |
| Entra Connect | Sincronização de objetos e atributos | Conta de sincronização como ponte de escrita para o cloud |
| PHS, Password Hash Sync | Hashes de senha sincronizados para o Entra ID | Comprometimento da infraestrutura de sync expõe o plano de senha |
| PTA, Pass-through Authentication | Senha validada no AD por agente | Agente PTA comprometido captura credenciais em texto claro |
| Federação com ADFS | Autenticação delegada ao on-premises | Asserção SAML forjada, o Golden SAML |
A leitura estratégica da tabela é que cada modo de autenticação desloca o ativo crítico de lugar: no PHS o segredo está na sincronização, no PTA está no agente, na federação está no certificado de assinatura do ADFS. O hunting híbrido precisa, por isso, cobrir as três residências de segredo, e a nota 04 deste capítulo complementa o quadro com o plano de tokens e sessões que circula depois da autenticação.
A segmentação em camadas de privilégio, o modelo de tiers, organiza a superfície e orienta a prioridade da caça: contas de Tier 0, com controle direto ou indireto sobre o domínio e sobre o híbrido, recebem telemetria reforçada e restrições de logon, e a conta de sincronização pertence a essa camada por definição. O hunter usa a mesma segmentação para calibrar limiares, porque um evento raro em conta de Tier 0 exige investigação imediata enquanto o mesmo evento em conta padrão apenas agrega à fila de triagem. O inventário de tiers é, portanto, pré-requisito do hunting híbrido, e a sua ausência aparece na primeira onda de falsos positivos.
3. TTPs no Lado On-Premises
O catálogo on-premises é dominado pelo ecossistema Kerberos e pelo modelo de delegação do AD, e a telemetria de eventos do Windows é madura e bem documentada. A tabela abaixo organiza as técnicas de maior prevalência com o mapeamento ATT&CK e o evento principal de caça.
| TTP | ATT&CK | Telemetria principal |
|---|---|---|
| Kerberoasting | T1558.003 | Evento 4769 em rajada por usuário com criptografia RC4 |
| DCSync | T1003.006 | Evento 4662 com GUID de replicação em conta que não é DC |
| Golden Ticket | T1558.001 | TGT com atributos anômalos e uso do KRBTGT exposto |
| Pass-the-Hash | T1550.002 | Logon 4624 tipo 3 sem autenticação interativa prévia |
| AS-REP Roasting | T1558.004 | Evento 4768 para contas sem pré-autenticação |
| Reconhecimento LDAP e BloodHound | T1087, T1069 | Consultas LDAP em massa originadas de estações não servidor |
| Criação de serviço para persistência | T1543.003 | Evento 7045 com binário em caminho atípico |
A característica que define a caça on-premises é a densidade de correlação possível: o mesmo servidor Windows emite os eventos de autenticação, de acesso a objeto e de serviço, e o hunter constrói cadeias curtas, como rajada de 4769 seguida de 4662 de replicação, que quase não geram falso positivo.
A leitura da tabela também orienta a coleta: sem os eventos 4769, 4662 e 7045 encaminhados, metade das técnicas do catálogo fica invisível, e a lacuna de coleta precisa aparecer no inventário de dados do framework CTH. O lado on-premises é onde o atacante obtém os privilégios que atravessam a ponte, e por isso a caça aqui tem valor antecipatório sobre o cloud: a kerberoasting de hoje é a mudança de permissão cloud da semana que vem. A prioridade de coleta segue essa lógica de cadeia, e não a conveniência de cada fonte. O lado on-premises também concentra o risco estrutural de privilégio: o membro do grupo de administradores de domínio que loga em estação de usuário abre a cadeia completa de roubo de credencial que termina na ponte de sincronização.
4. TTPs no Lado Entra ID
O catálogo cloud é dominado por abuso de identidade moderna, e a telemetria muda de natureza: em vez de eventos de sistema, o hunter consome logs de sign-in e de auditoria do provedor. A tabela abaixo organiza as técnicas de maior prevalência com o comportamento observado e a telemetria correspondente.
| TTP | Comportamento observado | Telemetria principal |
|---|---|---|
| Password spray | T1110.003 | ResultType 50126 em massa por IP e por ASN |
| MFA fatigue | T1621 | Rajada de ResultType 50074 até aprovação |
| Consent phishing | T1528 | AuditLogs Consent to application com escopos altos |
| Roubo e replay de token | T1550.004 | Sessão usada em ASN incompatível com o baseline |
| Registro de dispositivo abusivo | T1098.005 | AuditLogs Register device fora de janela e de frota |
| Reset de MFA pelo atacante | T1098 | Register security information precedido de vishing |
| Backdoor federado | T1606.002 | Alteração de trusted domain e certificado de assinatura |
O contraste com o lado on-premises orienta a arquitetura de caça: no Entra ID a raridade absoluta vale menos e a correlação com identidade vale mais, porque a plataforma já filtra a maior parte do ruído de rede. O registro administrativo, quem consentiu, quem registrou, quem resetou, é o campo mais produtivo, e a cadeia típica moderna é a combinação: vishing para reset de MFA, login novo, registro de dispositivo e consentimento de aplicativo, tudo em horas.
5. As Pontes: Sincronização e Federação
As pontes são onde o híbrido se torna único sistema para o atacante, e três mecanismos concentram o risco. A primeira ponte é a conta de sincronização do Entra Connect, que tem permissão de escrita no diretório cloud e, se o servidor de sync for comprometido, transforma mudanças no AD em mudanças administrativas no Entra ID, inclusive por group write-back. A segunda é o Golden SAML, em que o atacante que extrai o certificado de assinatura do ADFS forja asserções para qualquer usuário, inclusive administradores globais, sem tocar em senha e sem MFA, técnica documentada em casos como o APT29 e a intrusão via SolarWinds. A terceira é o agente PTA, que recebe a senha em texto claro no fluxo de validação e, comprometido, captura credenciais em escala.
| Ponte | Vetor de abuso | Sinal de caça principal |
|---|---|---|
| Conta de sincronização | Escrita no cloud a partir do AD comprometido | Auditoria com mudanças iniciadas pela conta de sync fora do padrão |
| Group write-back | Privilegio cloud herdado de grupo on-premises | Mudança de membros de grupo sincronizado por ator on-premises |
| Golden SAML | Asserção forjada com certificado do ADFS | Logon federado sem correspondência de evento no ADFS |
| Agente PTA | Captura de senha em texto claro | Comprometimento do servidor host do agente |
| Registro de dispositivo | Entrada do atacante na confiança condicional | Registro de dispositivo por conta de sync ou de serviço |
A consequência analítica é a direção do fluxo: a ponte carrega ataque nos dois sentidos, e o hunter precisa avaliar cada achado perguntando de qual lado a iniciativa nasceu. Um grupo sincronizado com membro novo é inofensivo se o dono do grupo aprovou, e crítico se a mudança nasceu de uma estação comprometida com acesso de escrita no AD.
A proteção operacional das pontes tem checklist estabelecido: o servidor de sync e o host do agente PTA pertencem ao Tier 0 e não recebem logon interativo de administradores comuns, o certificado de assinatura do ADFS é mantido em módulo de segurança com acesso restrito, e a rotação do KRBTGT segue o calendário de resposta a incidentes. O hunting desses ativos acompanha a mesma disciplina: qualquer logon, serviço ou script novo nesses hosts entra na fila de análise, porque a rotina normal deles é conhecida e pequena. A exceção investigada é sempre mais barata do que a exceção assumida.
6. Hunting Híbrido com Correlação
A caça híbrida exige telemetria dos dois lados na mesma plataforma de análise, com o relógio sincronizado e o identificador de usuário normalizado entre o sAMAccountName e o UPN. O padrão de correlação mais produtivo é a sequência entre lados: eventos on-premises que precedem mudanças cloud, e mudanças cloud que autorizam acessos on-premises. A tabela abaixo apresenta os pares de sinal de maior valor.
| Sinal on-premises | Sinal cloud | Interpretação |
|---|---|---|
| Reset de senha 4724 em conta privilegiada | Registro de informações de segurança em 24 horas | Possível preparação de acesso do atacante |
| 4662 de replicação por conta não DC | Logon administrativo cloud subsequente | Cadeia DCSync com uso imediato de privilégio |
| Comprometimento suspeito do servidor de sync | Auditoria com escrita da conta de sync | Ponte on-premises para cloud em atividade |
| Evento 4769 em rajada por conta de serviço | Uso anômalo do token do serviço no cloud | Kerberoasting com aproveitamento cloud |
A consulta abaixo exemplifica o padrão de sequência entre lados, unindo o reset de senha no AD ao registro de fatores de segurança no Entra ID dentro de 24 horas, janela típica de preparação de acesso pelo atacante.
let resets = SecurityEvent
| where EventID == 4724
| project T0 = TimeGenerated, Alvo = TargetUserName;
AuditLogs
| where OperationName == "Register security information"
| extend Alvo = tostring(TargetResources[0].userPrincipalName)
| join kind=inner resets on Alvo
| where TimeGenerated > T0 and TimeGenerated < T0 + 24h
| project Alvo, ResetAD = T0, RegistroMFA = TimeGenerated
| order by Alvo asc, RegistroMFA asc
As ferramentas de suporte também ajudam: soluções de detecção dedicadas a AD enriquecem a telemetria com a resolução dos protocolos Kerberos e LDAP, e o encaminhamento dos eventos on-premises para a mesma plataforma de análise cloud é o pré-requisito prático das consultas desta seção. O custo de manter a telemetria unificada é menor do que o custo de investigar um híbrido com metade da história em cada repositório. A nota 01 do capítulo 12 trata exatamente do risco de dado ausente ou tardio no inventário de caça.
7. Exemplo de Caça: Anomalia de Sincronização
A hipótese do caso: a conta de sincronização escreve no cloud o que o AD manda escrever, e o atacante que controla o servidor de sync a usa para mudanças que o fluxo normal nunca faria, como alterações em contas privilegiadas fora da janela de manutenção. A caça parte da auditoria do Entra ID filtrando as operações iniciadas pela conta de sincronização e compara com a linha de base de horários e de alvos.
AuditLogs
| where OperationName has_any ("Update user", "Add member to group")
| extend Iniciador = tostring(parse_json(tostring(InitiatedBy.app)).displayName)
| where Iniciador has "Directory Synchronization"
| extend Alvo = tostring(TargetResources[0].userPrincipalName)
| extend Atributo = tostring(TargetResources[0].modifiedProperties[0].displayName)
| summarize mudancas = count(), alvos = make_set(Alvo), atributos = make_set(Atributo)
by bin(TimeGenerated, 1h)
| where hourofday(TimeGenerated) !between (2 .. 5)
| order by mudancas desc
A saída fictícia do exercício trouxe um cluster suspeito: três atualizações de usuário às 09h40 de uma terça-feira, com o atributo de endereços de proxy alternativos alterados em duas contas de diretoria, padrão compatível com a preparação de redirecionamento de mensagem. A verificação no lado on-premises confirmou que a mesma mudança nasceu de uma estação de usuário com evento 4662 de escrita no atributo, e não do servidor de sync em sua rotina. A resposta removeu os endereços injetados, isolou a estação de origem, rotacionou as credenciais da conta de sincronização e gerou duas entregas: a deteção permanente do padrão de proxyAddress alterado por sync fora da janela, e a atualização do perfil de ameaça no TIP com a técnica observada, alimentando o PIR sobre proteção da infraestrutura de sincronização.
O ponto analítico que o caso fixa é a direção da investigação: a anomalia apareceu no cloud, mas a origem estava no on-premises, e a linha do tempo só fechou com os eventos da estação de origem. Essa travessia entre planos é o padrão do ambiente híbrido e exige que o hunter tenha acesso simultâneo às duas telemetrias, com o relógio sincronizado e a identidade normalizada. O caso entrou para a base de caças da equipe como hipótese reutilizável, e a consulta da seção 6 virou execução mensal no cronograma.
8. Erros Comuns e Pontos de Atenção
O erro estrutural é operar duas caçadas paralelas, uma para o AD e outra para o Entra ID, sem a plataforma comum que permite a correlação entre lados, perdendo exatamente as cadeias que atravessam a ponte. O erro técnico frequente é não normalizar a identidade entre sAMAccountName e UPN, quebrando os joins e gerando achados que parecem falsos por artefato de dado. Ambos se corrigem com a mesma decisão de arquitetura de dados, telemetria híbrida unificada e identidade normalizada.
Completam a lista os itens abaixo.
- Tratar a conta de sincronização como infraestrutura invisível, sem monitorar o que ela escreve e quando escreve.
- Ignorar o modo de autenticação do híbrido e caçar Golden SAML num ambiente que opera com PHS, onde a ponte é outra.
- Deixar o KRBTGT sem rotação após incidente com DCSync, permitindo o Golden Ticket indefinidamente.
- Não auditar os grupos sincronizados por write-back, porta de entrada de privilégio cloud a partir do AD.
- Excluir contas de serviço da caça de identidade, ficando cego para as identidades mais usadas nas pontes.
-
Correlacionar sem sincronizar relógios entre fontes, produzindo sequências falsas que contaminam a linha do tempo.
-
Deixar o servidor de sincronização fora do perímetro de caça por ser infraestrutura "estável".
- Assumir que PTA e PHS exigem as mesmas deteções, ignorando que os segredos vivem em lugares diferentes.
9. Integração com o Restante da Biblioteca
A nota estende a caça de identidade da nota 02 e antecipa a mecânica de tokens da nota 04, e recebe do capítulo 03 o enquadramento das TTPs e do capítulo 08, nota 09, a base de telemetria de eventos do Windows usada na correlação. As deteções híbridas alimentam o capítulo 18, e a proteção da infraestrutura de sincronização conecta com os controles do framework CTH dedicados a identidade e a preparação de caça. Na frente de inteligência, os achados híbridos são material de primeira ordem para o documento de campanha, porque revelam o domínio operacional do adversário sobre o ambiente como um todo, e o perfil de ameaça atualizado no TIP fecha o loop que o capítulo 26 se propõe a manter em movimento.