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07 - Modelos de Investigação e Hunting

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Modelos de Investigação e Hunting

Nota 07 do capítulo 27 - Governança da Biblioteca de CTI. Institui a biblioteca de templates que padroniza como o time documenta investigações e caças.
Apresenta cinco modelos oficiais: plano de caça, caderno de caça, relato de descoberta, ficha de triagem de incidente e roteiro de forense básica, cada um com campos, orientação do que registrar e dica de preenchimento.
Dialoga com as notas 05 e 06 do capítulo 07, com a nota 04 do capítulo 05 e com as notas 08, 10 e 11 deste capítulo, que aplicam os modelos e os submetem ao ciclo de qualidade e versionamento.

1. Contexto e Posicionamento na Biblioteca

As notas anteriores deste capítulo definiram a estrutura do acervo; esta define a forma mínima com que o trabalho analítico se materializa em documentos. Investigação e caça que não deixam registro reproduzível viram conhecimento tácito, que se perde na rotatividade da equipe, e a organização acaba pagando o mesmo custo analítico a cada reincidência do mesmo padrão de ataque. A biblioteca de templates resolve esse problema na origem: o analista não precisa decidir, a cada caso, o que documentar, porque o modelo já decidiu por ele, e o revisor não precisa adivinhar onde procurar cada informação, porque o lugar de cada campo é fixo e previsível.

O papel da nota dentro do capítulo é duplo. Primeiro, garantir que a produção do time siga o mesmo esqueleto, o que torna os registros comparáveis entre analistas, entre caças e entre trimestres, e permite que a nota 10 deste capítulo transforme o padrão em critérios formais de qualidade auditáveis. Segundo, ligar a governança do acervo à operação: templates são artefatos versionados como qualquer nota, sujeitos à revisão semestral descrita na nota 11, e evoluem a partir do feedback de uso que aparece naturalmente nos cadernos de caça preenchidos.

2. Princípios da Biblioteca de Templates

Um template bom é curto o suficiente para ser preenchido no calor do trabalho e completo o suficiente para continuar útil seis meses depois, e a tensão entre esses dois objetivos se resolve com três regras simples. Todo campo vem acompanhado de descrição do que registrar e de dica de preenchimento, porque campo sem orientação gera preenchimento inconsistente entre analistas. Todo registro carrega identificador único, autor e data, porque rastreabilidade é condição para auditoria e para métricas confiáveis. E todo template termina com um campo de desfecho declarado, porque investigação sem desfecho não fecha o ciclo de caça descrito no capítulo 06 e infla o estoque de casos abertos.

A tabela a seguir fixa os cinco modelos oficiais da biblioteca, o gatilho que dispara cada um e o destino natural do documento produzido, deixando explícito que os modelos se encadeiam em cadeia documental e não se substituem entre si.

Template Função Gatilho de uso Destino do documento
Plano de caça Formalizar hipótese, escopo e critério de sucesso antes de caçar Hipótese aprovada no quadro de caça do time Caderno de caça e, se positivo, relato de descoberta
Caderno de caça Registrar consultas, parâmetros e observações durante a execução Início de qualquer execução de plano de caça Referência permanente do plano; insumo para detecções
Relato de descoberta Comunicar um achado com evidência e recomendação acionável Caça ou triagem encontra atividade relevante Disseminação com rótulo TLP e encaminhamento à resposta
Ficha de triagem de incidente Padronizar o primeiro atendimento de alerta ou suspeita Alerta atribuído ao analista de plantão Encaminhamento à forense ou arquivamento justificado
Roteiro de forense básica Guiar aquisição e preservação mínima de evidência Suspeita confirmada que exige coleta de artefatos Anexo do relato de descoberta e do dossiê de resposta

A cadeia completa garante que qualquer leitor consiga reconstruir a história de um caso olhando apenas os documentos padrão, sem depender de mensagens em chat, e-mails perdidos ou memória dos envolvidos. Essa capacidade de reconstrução é o critério prático de que a biblioteca de templates está funcionando como ativo de governança e não como burocracia adicional.

3. Plano de Caça (Hunt Plan)

O plano de caça é o contrato do analista consigo mesmo e com o time: declara o que será caçado, por que, onde, com o que e como se sabe que a caça terminou. Sem plano, a caça degrada em navegação livre que às vezes encontra algo e quase nunca prova nada; com plano, até o resultado negativo tem valor, porque documenta uma lacuna de cobertura conhecida e reduz o risco de repetição. Os campos obrigatórios e suas orientações são:

Campo O que registrar Dica
Identificador Código único no padrão HUNT-AAAA-NNN Reserve a numeração no quadro do time para evitar duplicidade
Título Frase curta e específica sobre o alvo da caça Título vago, como anomalias de logon, dificulta a busca futura
Hipótese Enunciado testável: se X ocorrer, então Y deve aparecer em Z Uma hipótese por plano; hipóteses múltiplas geram caças sem fim
Origem da inteligência Feed, relatório, técnica ACH ou lacuna de cobertura que gerou a hipótese Cite o relatório ou a nota interna para preservar a trilha
Técnicas ATT&CK Táticas e técnicas previstas, com IDs Limite a três técnicas para manter a caça executável
Fontes de dados Índices, datasets e janela temporal disponíveis Confirme retenção antes de aprovar; caça sem dado é gasto puro
Consultas Texto exato na linguagem nativa do SIEM ou EDR Guarde também as consultas que falharam, pois elas ensinam
Critério de sucesso O que caracteriza achado positivo, em termos observáveis Defina antes de executar para neutralizar viés de confirmação
Custo estimado Horas previstas e volume de dados a varrer Plano acima de 8 horas deve ser fatiado em planos menores
Desfecho Positivo, negativo ou inconclusivo, com data e analista Desfecho negativo também alimenta a métrica de cobertura

A regra prática que sustenta o template é a do prazo: plano de caça que não cabe em uma semana de trabalho parcial está mal recortado, e o correto é dividir a hipótese em planos menores em vez de estender o mesmo plano por semanas. Plano grande demais também prejudica o caderno, porque acumula consultas de hipóteses diferentes no mesmo registro e contamina a análise.

4. Caderno de Caça (Hunt Log)

O caderno de caça é o diário de execução e cumpre três funções que nenhum relatório final cobre sozinho. Primeira, reproducibilidade: qualquer colega deve conseguir repetir o caminho do analista a partir do caderno, o que é essencial na revisão por pares e na transferência de caso durante férias ou troca de plantão. Segunda, proteção analítica: quando o analista registra cada consulta e cada parâmetro, ele evita repetir caminho já percorrido e preserva percepções parciais que só ganham sentido dias depois. Terceira, insumo de engenharia: consultas que produzem muito ruído ou muito silêncio viram matéria-prima para o pipeline de detecção do capítulo 18, convertendo trabalho de caça em alertas permanentes.

Campo O que registrar Dica
Carimbo de tempo Data e hora do registro Registre no momento da ação, nunca no fim do dia
Analista Quem executou a consulta ou ação Em caça pareada, registre os dois nomes
Consulta executada Texto exato, com parâmetros e índice Copie do console; parafrasear destrói a reproducibilidade
Volume retornado Linhas, eventos ou hosts afetados Volume alto pede registro do corte aplicado
Observações Interpretação do resultado naquele momento Anote inclusive hipóteses descartadas e o porquê
Artefatos Screenshots, notebooks, hashes e amostras Referencie por caminho e hash, nunca por memória
Próximo passo O que faria a seguir antes da interrupção Essencial para retomar caças longas sem retrabalho

A cadência de registro é mais importante que a formatação: caderno preenchido em tempo real, com uma linha por ação, sobrevive a auditorias e revisões; caderno reconstruído no fim da semana é ficção disfarçada de documentação. Time que adota notebook Jupyter para caça pode usar o próprio notebook como caderno, desde que a célula de texto inicial siga o template deste capítulo.

5. Relato de Descoberta (Finding Report)

O relato de descoberta transforma um achado de caça ou de triagem em comunicação acionável, e é o único documento da cadeia com destinatário externo ao time de caça, o que exige disciplina de rótulo TLP e de linguagem adequada ao público. Relato bem escrito chega à equipe de resposta com o que ela precisa para agir, chega à liderança com o que ela precisa para decidir e volta ao time de caça como validação da hipótese original. Os campos obrigatórios são:

Campo O que registrar Dica
Identificador Código único no padrão FND-AAAA-NNN Vincule ao HUNT que originou o achado
Resumo executivo Três frases: o que foi encontrado, onde e qual o risco Escreva por último, quando o corpo já estiver pronto
Evidência Consultas, logs, hashes, capturas e caminhos de artefato Evidência sem hash e sem caminho não é evidência
Mapeamento ATT&CK Táticas e técnicas confirmadas ou suspeitas, com IDs Diferencie confirmado de suspeito em cada item
Impacto Consequência potencial em negócio, dado ou operação Fale em risco para o negócio, não em jargão técnico
Confiança Nível de confiança da análise, nos padrões do capítulo 05 Estado alto, moderado ou baixo com a justificativa
Ação recomendada Detecção nova ou ajustada, hardening e caça complementar Separe o que é demanda de detecção do que é demanda de TI
Rótulo TLP Circulação máxima permitida do documento O rótulo entra no cabeçalho, na primeira linha visível
Destinatários Listas de distribuição e canais de disseminação Alinhe o público ao rótulo para evitar vazamento de escopo

A disciplina mais negligenciada deste template é a separação entre fato e inferência, aprendida nas notas 08 e 09 do capítulo 05: o corpo do relato separa o que os logs provam do que a análise conclui, e cada inferência carrega seu nível de confiança. Essa separação é o que protege o analista quando a hipótese precisa ser revista e é o que dá à liderança a correta margem de erro da informação recebida.

6. Ficha de Triagem de Incidente

A ficha de triagem é a porta de entrada formal do atendimento a alertas e suspeitas, e seu objetivo é tornar os primeiros trinta minutos de qualquer incidente repetíveis entre analistas de plantão. Ela substitui o julgamento improvisado por um roteiro fixo de perguntas, reduz a variância entre plantões e produz o registro mínimo que um caso escalado precisa para não recomeçar do zero na mão do próximo time. Os campos obrigatórios são:

Campo O que registrar Dica
Identificador Código único no padrão INC-AAAA-NNN Use o número do sistema de tickets quando existir
Fonte do alerta Regra, feed, EDR, SIEM, usuário ou terceiro que reportou Fonte permite calcular depois a qualidade de cada origem
Veredicto Verdadeiro positivo, falso positivo ou indeterminado Veredicto indeterminado tem prazo e dono, não fica aberto
Severidade Nível de prioridade segundo a matriz de risco da casa Severidade não substitui veredicto; preencha os dois
Ativos afetados Hosts, contas, caixas de correio e serviços envolvidos Liste por identificador único, inclusive o excluído da suspeita
Indicadores extraídos IPs, domínios, hashes e contas suspeitas Envie ao TIP com fonte e timestamp de primeira observação
Ações imediatas Isolamento, revogação de sessão, bloqueio já executados Registre quem autorizou cada ação disruptiva
Escalação Para quem escalou, quando e com qual conjunto de evidência Escalação sem pacote mínimo de evidência atrasa o caso
Tempo de triagem Minutos entre atribuição e veredicto Métrica base para a discussão de sobrecarga do capítulo 12

A ficha termina sempre com o campo de desfecho: encerrado como falso positivo, convertido em caso de resposta ou convertido em relato de descoberta. Esse encadeamento explícito impede o problema clássico do alerta triado verbalmente no chat e depois esquecido, que é uma das causas silenciosas de dwell time alto em ambientes com volume elevado de alertas.

7. Roteiro de Forense Básica

O roteiro de forense básica orienta a coleta mínima, ordenada e defensável de evidência quando a triagem confirma a suspeita, e não substitui o time dedicado de resposta a incidentes em casos grandes. O princípio estruturante é a ordem de volatilidade: captura-se primeiro o que desaparece primeiro, memória antes de rede, rede antes de disco, e nada se executa no host suspeito além do estritamente necessário à coleta. As etapas do roteiro são:

Etapa O que fazer Dica
1. Preservação Congelar o estado: anotar hora, conexões e processos visíveis Foto de tela e cópia da saída de netstat valem como registro
2. Memória Aquisição com winpmem ou equivalente, antes de qualquer reboot Nomeie o arquivo com host, data e hora em UTC
3. Hashing Calcular SHA-256 de cada imagem e arquivo coletado O hash é a identidade da evidência para toda a cadeia
4. Imagem de disco Imagem lógica das pastas críticas ou física quando possível Prefira imagem física em casos de criptografia e antiforense
5. Artefatos-chave Prefetch, SRUM, registry, logs de evento, tarefas agendadas KAPE e o próprio Velociraptor aceleram essa coleta
6. Rede Capturas de tráfego e logs de proxy, DNS, firewall e VPN Solicite aos pontos centralizados, não ao host suspeito
7. Cadeia de custódia Registrar quem coletou, quando, com que ferramenta e versão Planilha simples de custódia já atende ao roteiro básico
8. Encaminhamento Entregar o pacote ao time de resposta ou forense sênior Pacote sem custódia perde valor probatório e analítico

O roteiro termina com o registro no sistema de casos e com a vinculação dos hashes coletados ao TIP, para que a organização reconheça o mesmo artefato em outra máquina ou em outro incidente. A regra de ouro operacional é não analisar no host comprometido: aquisição em um ambiente, análise em outro, sempre.

8. Exemplo Padrão Ouro: Plano de Caça Preenchido

O exemplo a seguir mostra um plano de caça completo, preenchido conforme o template da seção 3, e serve de padrão de referência para revisão e treinamento de novos analistas. Note que a hipótese é testável, o critério de sucesso é observável e a consulta está registrada na linguagem nativa da plataforma, com todos os elementos que permitem auditoria posterior.

IDENTIFICADOR  : HUNT-2026-014
TITULO         : Beaconing HTTPS para dominios recem-registrados
ANALISTA       : M. Duarte
DATA DO PLANO  : 2026-03-09
STATUS         : aprovado pelo lead em 2026-03-10

HIPOTESE
Se um host corporativo estiver sob comando e controle por HTTPS, entao
aparecerao conexoes periodicas, com intervalo entre 60 e 300 segundos,
para dominio com idade inferior a 30 dias, com volume de resposta baixo
e com resolvencia DNS fora do padrao de navegacao do host.

ORIGEM DA INTELIGENCIA
REL-TAC-2026-021 (TLP:AMBER), loader entregue por phishing com C2 em
dominios recem-registrados; lacuna na tatica Command and Control
confirmada no heatmap de cobertura (nota 04 do capitulo 18).

TECNICAS ATT&CK
T1071.001 (Application Layer Protocol: Web Protocols)
T1568.002 (Dynamic Resolution: Domain Generation Algorithms)

FONTES DE DADOS
Indice de proxy (retencao de 431 dias), logs DNS (180 dias), NetFlow
(90 dias) e contexto de idade de dominio via CT logs e WHOIS historico.

CONSULTA PRINCIPAL (Splunk SPL)
index=proxy uri_domain=*
| stats count avg(bytes_in) avg(bytes_out) min(_time) max(_time)
        by src_ip uri_domain
| where count > 20
| lookup idade_dominio domain AS uri_domain OUTPUT dias_idade
| where dias_idade < 30

CRITERIO DE SUCESSO
Host interno com 20 ou mais conexoes em janela de 24 horas para dominio
com idade inferior a 30 dias, intervalo medio entre conexoes inferior a
300 segundos e media de bytes_out superior a media de bytes_in.

JANELA E CUSTO
Ultimos 60 dias de proxy; estimativa de 4 horas de analise e 6 GB varridos.

DESFECHO (preencher no encerramento da caça)
[ ] positivo   [ ] negativo   [ ] inconclusivo
Data do desfecho, analista e referencia ao relato de descoberta:

A consulta do exemplo é deliberadamente simples: a função do plano é documentar raciocínio testável, e não impressionar com lógica complexa. Caças reais começam simples no plano, registram o refinamento no caderno e terminam com a versão final da consulta pronta para virar regra de detecção no pipeline do capítulo 18.

9. Erros Comuns e Pontos de Atenção

O erro mais caro é tratar template como formulário de compliance e preencher campos por obrigação, sem raciocínio: hipótese copiada genérica, critério de sucesso vago e desfecho em branco. O antídoto é cultural e vem da liderança do time, que recusa plano sem hipótese testável na revisão semanal e elogia publicamente cadernos que registraram caminhos errados com honestidade. O segundo erro é duplicar modelos: cada equipe que cria sua variante local do plano de caça destrói a comparabilidade que justifica o padrão, e o canal correto para necessidades locais é a evolução versionada do template oficial pela nota 11.

O terceiro erro é confundir volume de documento com qualidade de documento. Relato de descoberta de duas páginas densas e evidenciadas vale mais que relatório de vinte páginas sem hash, sem critério de confiança e sem recomendação separada por responsável. Por fim, atenção à disciplina do TLP: relato de descoberta mal rotulado que circula por lista ampla queima a confiança construída nas notas 05 e 06 do capítulo 12, e recuperar confiança de fonte custa mais que qualquer correção técnica do template.

10. Integração com o Restante da Biblioteca

Os cinco templates são a camada operacional sobre a qual a governança do capítulo 27 se apoia: a nota 08 usa o relato de descoberta para estruturar estudos de caso, a nota 09 fornece datasets para exercitar o preenchimento sem risco real, a nota 10 audita notas e documentos contra os critérios de qualidade e a nota 11 versiona os templates como parte do acervo. Nos capítulos técnicos, o plano de caça aplica o ciclo de caça do capítulo 06 e as metodologias do capítulo 23, o caderno alimenta as métricas do capítulo 11 e o relato de descoberta consome os padrões de confiança e incerteza do capítulo 05.

Para colocar em prática esta semana, escolha uma caça real de baixa complexidade, preencha o plano seguindo o padrão ouro da seção 8, mantenha o caderno em tempo real durante a execução e feche o ciclo com relato de descoberta mesmo que o desfecho seja negativo. O primeiro ciclo completo gera mais aprendizado sobre o processo do que qualquer apresentação sobre ele, e os artefatos produzidos viram material de onboarding permanente para o próximo analista.