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04 - VERIS (Vocabulário para Registro de Incidentes)

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VERIS (Vocabulário para Registro de Incidentes)

Nota do capítulo 04 (Modelos e Frameworks para CTI).
Apresenta o VERIS (Vocabulary for Event Recording and Incident Sharing): um vocabulário comum para registrar incidentes, suas categorias e o uso interno como taxonomia de comparação.
Dialoga com o Diamond Model e a Cyber Kill Chain deste capítulo, com o ciclo de inteligência do capítulo 01 e com os controles de resposta a incidentes da seção 15.

1. Contexto e Posicionamento na Biblioteca

O ATT&CK nomeia o comportamento do adversário, o Diamond Model estrutura cada evento em quatro vértices e a Kill Chain organiza a intrusão em fases; falta ao conjunto um instrumento para registrar o incidente consolidado de forma que equipes diferentes, em anos diferentes, produzam registros comparáveis. Esse é o papel do VERIS (Vocabulary for Event Recording and Incident Sharing), um framework aberto, publicado em formato de esquema JSON, que define o vocabulário comum para descrever quem fez o quê, contra qual ativo, com qual atributo afetado, como foi descoberto, em que linha do tempo e com qual impacto. O framework nasceu por volta de 2011, conduzido pela Verizon com contribuições da comunidade, exatamente para resolver o problema que a própria Verizon enfrentava ao consolidar milhares de casos: sem vocabulário comum, estatística é impossível.

Na biblioteca, esta nota segue o Diamond Model e herda explicitamente a separação entre ator, ação, ativo e resultado, elevando-a do evento para o incidente fechado. O registro VERIS é o elo entre a resposta a incidentes e a produção de inteligência: os controles IR.2 e IR.4 da seção 15 classificam e encerram casos, o CTI.9 fecha o ciclo com feedback, e este vocabulário é o formato que transforma aqueles casos em matéria-prima comparável para os requisitos de inteligência do capítulo 01. O leitor deve sair daqui sabendo descrever um incidente nas categorias do VERIS, entender o que o DBIR demonstra em escala e decidir quais incidentes internos alimentam a produção de inteligência.

2. O Problema do Registro Ad Hoc e a Proposta do VERIS

O registro ad hoc de incidentes tem sempre o mesmo destino: cada analista escreve na forma que aprendeu, campos obrigatórios mudam de significado entre equipes, e a base acumulada não suporta nenhuma pergunta que exija comparação. Perguntas simples, como qual proporção de incidentes começou por credencial roubada ou quanto tempo separa o comprometimento da descoberta, tornam-se inviáveis sem padronização, porque a resposta depende de reconstruir caso a caso o que cada registro quis dizer. Em escala de indústria, com milhares de casos por ano, o problema é ordens de magnitude maior, e foi nesse contexto que o VERIS foi concebido como vocabulário aberto em vez de ferramenta: o framework define campos, valores controlados e regras de preenchimento, e cada organização escolhe onde armazenar e como processar.

A proposta tem três decisões de desenho que explicam sua longevidade. A primeira é o formato: o esquema em JSON é legível por máquina, versionável e naturalmente integrável a pipelines e a plataformas como MISP e OpenCTI. A segunda são os valores controlados: a maior parte dos campos usa enumeradores fechados, o que força a disciplina de comparação, mesmo quando a precisão individual é menor. A terceira é a honestidade da incerteza: campos de confiança, de valores desconhecidos e de incidentes não confirmados fazem parte do desenho, porque um vocabulário que obrigaria a chutar produziria estatística bonita e falsa.

3. As Categorias do Vocabulário

O VERIS organiza o registro em categorias fixas, e cada uma responde a uma pergunta do incidente. A tabela abaixo resume as categorias centrais com exemplos de valores típicos, e a leitura por linha mostra que o conjunto cobre o ciclo completo: de quem agiu até quanto custou.

Categoria Pergunta que responde Valores típicos
actor Quem agiu e por que motivo? external, internal, partner, unknown; motivos como financial, espionage, grudge
action Como o adversário agiu? hacking, malware, social, misuse, physical, error, environmental
asset Contra o que agiu? server, network, user device, person, media, kiosk, cloud
attribute O que foi afetado? confidentiality, integrity, availability, com variedade e quantidade de dados
discovery Como o incidente foi descoberto e por quem? interno por monitoramento ou alarme; externo por cliente, polícia, terceiro
timeline Quando ocorreu cada marco? comprometimento, exfiltração, descoberta, contenção, com unidades e estimativas
impact Qual foi o custo e a gravidade? rating geral de insignificant a catastrophic, perdas, custos de resposta

Duas categorias costumam gerar dúvida e merecem precisão. O attribute é a pergunta de CIA em linguagem de incidente: a confidencialidade registra se houve disclosure e que tipo de dado, a integridade registra o que foi alterado e a disponibilidade registra o que parou e por quanto tempo. A timeline registra intervalos estimados, e não certezas forenses: o campo de comprometimento aceita unidades como minutos ou semanas precisamente porque o ponto exato raramente é conhecido, e estimar honestamente dentro de uma faixa vale mais que deixar o campo vazio.

O vocabulário conversa com os outros modelos do capítulo, e essa correspondência é o que permite converter registros em análise sem retrabalho. A tabela abaixo mapeia as categorias do VERIS para os componentes do Diamond Model e para o vocabulário do ATT&CK, e mostra que o registro consolidado nada mais é que a soma estruturada dos eventos que o Diamond modela individualmente.

Categoria VERIS Correspondência no Diamond Model Correspondência no ATT&CK
actor Vértice de adversário Grupos e táticas de origem
action Vértice de capacidade Técnicas organizadas por tática
asset Vértice de vítima Plataformas e dados afetados
attribute Propriedades de CIA do evento Efeito, não coberto diretamente pelo ATT&CK
discovery Meta-features de fonte e tempo Dados de detecção e resposta
timeline Meta-features temporais do evento Sequência de táticas da cadeia
impact Resultado consolidado do caso Objetivo final do adversário

4. Exemplo de Registro Simplificado

O registro abaixo descreve em VERIS um incidente realista de phishing com roubo de credenciais, com valores abreviados para caber na nota. Na prática, o esquema oficial impõe enumeradores completos e validação automatizada, mas a estrutura de raciocínio é exatamente esta.

{
  "incident_id": "INC-2025-0417",
  "security_incident": "Yes",
  "confidence": "High",
  "summary": "Phishing com roubo de credenciais e acesso a caixa corporativa",
  "victim": {"industry": "52", "country": "BR", "employee_count": "Large"},
  "actor": [
    {"external": {"variety": ["Organized crime"], "motive": ["Financial"]}}
  ],
  "action": [
    {"social": {"variety": ["Phishing"], "vector": ["Email"]}},
    {"hacking": {"variety": ["Use of stolen creds", "C2"],
                 "vector": ["Web application"]}}
  ],
  "asset": [
    {"assets": [{"variety": "P.personnel"}, {"variety": "N.server", "cloud": "Yes"}]}
  ],
  "attribute": {
    "confidentiality": {
      "data_disclosure": "Yes",
      "data": [{"variety": "Credentials", "amount": 120}]
    },
    "availability": {
      "variety": ["Loss of productivity"],
      "duration": {"unit": "Hours", "value": 8}
    }
  },
  "discovery_method": {"external": {"variety": ["Customer"]}},
  "timeline": {
    "compromise": {"unit": "Minutes"},
    "exfiltration": {"unit": "Hours", "value": 3},
    "discovery": {"unit": "Days", "value": 12},
    "containment": {"unit": "Hours", "value": 6}
  },
  "impact": {"overall_rating": "Minor", "iso_currency_code": "BRL",
             "cost_corrective_action": 48000},
  "targeted": "Opportunistic"
}

A leitura do registro mostra a força do vocabulário: sem ler o relatório narrativo, qualquer ferramenta já sabe que o vetor foi e-mail, que o motivo é financeiro, que a descoberta veio de fora, que levaram doze dias entre comprometimento e descoberta e que o incidente foi oportunista. Esses campos são os que, agregados, respondem as perguntas de gestão que nenhum relatório isolado responde.

5. O DBIR como Aplicação em Escala

O DBIR (Data Breach Investigations Report), publicado anualmente pela Verizon, é a demonstração de escala do VERIS: o relatório consolida milhares de incidentes e dezenas de milhares de eventos de segurança por edição, todos descritos no vocabulário, e é justamente a comparabilidade que permite extrair padrões intitulados, como ataques básicos a aplicações web, intrusão de sistema, engenharia social e erro diverso. Os números do DBIR, como a dominância persistente do uso de credencial roubada, do phishing e do erro humano em grande parte dos casos, só são possíveis porque milhares de organizações descreveram incidentes nos mesmos termos.

A lição metodológica para a organização é direta e independe de contribuir com dados ao relatório. O que o DBIR prova é que registro padronizado acumulado vira conhecimento estatístico, e essa prova vale na escala interna tanto quanto na escala setorial: três anos de incidentes registrados em VERIS permitem responder qual vetor domina, qual tempo médio de descoberta e qual atributo mais custou, com números próprios que valem mais que benchmarks genéricos. As edições do DBIR continuam úteis como referência setorial para os requisitos de inteligência do capítulo 01, e a comparação entre o padrão público e o padrão interno, setor contra própria base, é um dos exercícios analíticos mais produtivos que um programa de CTI pode executar.

6. Uso Interno: Taxonomia de Incidentes e Comparabilidade

Adotar o VERIS internamente é um projeto de taxonomia, e não de software, e começa por três decisões de governança. A primeira é o momento do registro: o vocabulário entra na triagem do IR.2 como campos estruturados do ticket, e não como formulário retrospectivo no encerramento, porque a timeline estimada só é confiável quando registrada durante a investigação. A segunda é o dono do esquema: cada organização define quais campos são obrigatórios na sua realidade, e o mínimo viável razoável inclui actor, action, asset, attribute, discovery_method, timeline e impact. A terceira é a revisão: um comitê leve revisa trimestralmente os enumeradores locais, resolve casos ambíguos e documenta decisões, porque a taxonomia que não evolui com o ambiente vira formalidade ignorada.

Os retornos aparecem em três frentes mensuráveis. Na métrica, o MET.3 passa a calcular tempo de descoberta e de contenção a partir dos campos de timeline, com série histórica consistente, e o MET.1 mede a distribuição de ações e atores ao longo do ano. Na gestão de risco, a distribuição interna de action e attribute mostra onde a organização realmente perde, o que raramente coincide com a percepção de quem só vê os casos famosos. Na comunicação, o registro estruturado permite que o CTI.7 produza relatórios com números comparáveis entre trimestres, e que a diretoria acompanhe tendência, e não apenas episódios.

O caminho de adoção que funciona é incremental, e vale registrá-lo como sequência de passos, porque a tentativa de implantar o esquema completo de uma vez é o motivo mais comum de abandono.

  • Mapear os campos que o ticket de IR hoje preenche para o enumerador VERIS mais próximo, documentando cada decisão de mapeamento com exemplo real.
  • Definir um mínimo obrigatório enxuto, tipicamente actor, action, asset, attribute, discovery_method, timeline e impact, e deixar o restante opcional com incentivo de preenchimento.
  • Treinar o time de resposta com três casos históricos reais do próprio ambiente, comparando os registros produzidos por analistas diferentes e resolvendo divergências.
  • Automatizar a validação contra o esquema, com rejeição de valores fora dos enumeradores e campo de texto livre separado para nuance.
  • Revisar trimestralmente com comitê leve, atualizando mapeamentos e documentando decisões que viram precedente.

A primeira pergunta agregada que a base habilita é também a mais cobrada por gestão: quanto tempo separa o comprometimento da descoberta, por vetor. A consulta abaixo responde a partir de uma tabela interna derivada dos registros.

SELECT action_variety,
       AVG(datediff(day, data_comprometimento, data_descoberta)) AS dias_para_descobrir,
       AVG(datediff(hour, data_descoberta, data_contencao)) AS horas_para_conter,
       COUNT(*) AS incidentes
FROM incidentes_veris
WHERE ano >= 2024
GROUP BY action_variety
ORDER BY dias_para_descobrir DESC;

O resultado dessa consulta, repetido trimestralmente, é o que transforma a taxonomia em instrumento de gestão: o vetor com maior tempo de descoberta é o candidato natural a novo analytics de detecção, e a queda do número ao longo dos trimestres é a evidência de que a detecção produziu efeito.

7. VERIS e CTI: Quais Incidentes Alimentam a Produção

O registro padronizado é o que permite fechar o ciclo entre resposta a incidentes e inteligência com critério, e não com volume. Nem todo incidente merece virar inteligência, e o critério de seleção fica objetivo quando os casos estão descritos no vocabulário: alimentam a produção de inteligência os incidentes com ações pouco comuns na base interna, os que conectam a campanhas ou atores conhecidos, os que afetam setores monitorados pelos PIRs e os que revelam infraestrutura ou ferramentas novas. O incidente oportuniste de commodity, já coberto por detecção madura, entra na estatística e não no fluxo analítico, e essa triagem é o que impede o ciclo de feedback do CTI.9 de afogar a equipe em repetição.

O produto da seleção segue dois caminhos complementares. Para dentro, cada incidente selecionado gera requisitos de detecção: as ações registradas mapeiam para técnicas ATT&CK, as sequências viram hipóteses de hunting no formato do TH.6, e as características do ator alimentam o perfil de ameaças do capítulo 01. Para fora, o registro higienizado, sem dados da vítima e classificado sob TLP 2.0, compartilha-se com ISACs e parceiros pelos canais do capítulo 02, e é essa contribuição, descrita no mesmo vocabulário usado pelo DBIR, que mantém a estatística setorial viva e útil para a própria organização no ano seguinte.

O critério de seleção cabe em uma tabela de decisão, e vale fixá-la como política do ciclo de feedback, para que a escolha de o que alimentar a produção deixe de depender do entusiasmo do analista pelo caso.

Característica do incidente Alimenta a produção? Destino do registro
Ações raras na base interna Sim Hipótese de hunting no formato do TH.6
Vínculo com campanha ou ator conhecido Sim Enriquecimento do perfil de ameaças
Afeta setor monitorado pelos PIRs Sim Atualização dos requisitos do CTI.1
Infraestrutura ou ferramenta nova Sim Clusters da nota de Pivoting e compartilhamento
Commodity coberto por detecção madura Não Estatística da base e métricas do MET.3

8. Erros Comuns e Pontos de Atenção

  • Tratar o VERIS como ferramenta e procurar o sistema oficial: o framework é vocabulário e esquema, e a implementação é do ambiente, tipicamente nos campos do ticket de IR e do data lake.
  • Preencher os campos no encerramento do caso: a timeline reconstruída semanas depois é ficção; correção: registrar estimativas durante a investigação e revisar no encerramento.
  • Usar valores livres onde o esquema pede enumeradores: a liberdade destrói comparabilidade, que é a única razão de ser do vocabulário; correção: enumerador fechado e campo de texto separado para nuance.
  • Obrigar precisão que não existe: chutar data exata de comprometimento fabrica evidência; correção: usar unidades de estimativa e registrar confiança.
  • Copiar o conjunto completo de campos do esquema antes de conseguir preencher o mínimo: o resultado é base vaziada; correção: mínimo obrigatório enxuto, expansão gradual com revisão.
  • Deixar a taxonomia sem dono: ambiguidades acumuladas retornam como base incomparável; correção: comitê leve com cadência trimestral e registro de decisões.
  • Confundir incidente com vazamento: o VERIS separa os conceitos, e o registro deve marcar claramente o que é incidente confirmado, o que é evento e o que tem disclosure confirmado.

9. Integração com o Restante da Biblioteca

O VERIS é o modelo que consolida: herda do Diamond Model a separação entre ator, ação e ativo, recebe do ATT&CK o vocabulário técnico das ações e entrega à Kill Chain a linha do tempo em fases, e por isso fecha o conjunto de modelos do capítulo. Na seção 15, o IR.2 classifica com o vocabulário, o IR.4 encerra e registra, o MET.3 mede a partir dos campos de timeline, o CTI.9 usa a seleção de incidentes como feedback e o PLT.3 carrega registros higienizados em STIX quando o compartilhamento for formal. Com o capítulo 01, o registro alimenta os PIRs com evidência própria, e com o capítulo 02 sustenta o compartilhamento com ISACs no formato que a indústria já consome.

A decisão operacional que separa adoção real de palestra sobre VERIS é o compromisso de comparabilidade temporal: o valor do vocabulário só aparece no segundo ano, quando a base acumulada permite afirmar, com números próprios, qual vetor domina e onde o tempo de descoberta melhorou ou piorou. Organizações que desistem no primeiro trimestre, por acharem os enumeradores incômodos, perdem justamente o retorno que o esforço existe para produzir, e voltam à planilha de casos que nenhuma pergunta agregada consegue responder.